Cores Barulhentas


CAP 1

-Cara! Sua parede é verde!
-Não! É limão!
-Mas limão não é verde?
-Nossa! É mesmo!
Uma mocinha de 15 anos toma o pequeno cigarro caseiro da mão de um dos dois rapazes de 16 anos que estavam conversando. Ela dá uma tragada e prossegue a conversa:
-Sabem o que mais é verde também? E.T.s!
-Ih! É mesmo! O que será que eles vão fazer quando chegarem aqui? - diz o jovem de aspecto magro e pequeno.
-Vão matar todo mundo! - respondeu o outro jovem, este alto e forte.
-Não! Eu acho que eles vão nos fazer trabalhar em minas de sal! - disse o pequeno rapaz.
-Ei! Mas tem sal no espaço? - indagou a menina.
-Não sei, Gina... mas deve ter no planeta deles!
Porém, o jovem mais alto continuou a pergunta da namorada:
-Ô, Hobbit, mas e se eles nasceram no espaço?
-Ogro, eles têm que ter nascido de alguém! No espaço não tem ninguém!
-Claro que tem, cara! Senão, não tinham recebido a mensagem deles dizendo que iam invadir a Terra!
-É! Mas eles nasceram de alguém!
-Das estrelas! - deduziu Gina.
-Tanto faz, a gente vai morrer mesmo...
-Eu acho que vou parar de estudar. Aproveitar esses últimos dois anos antes dos E.T.s chegarem para ficar chapadão! - comentou Ogro.
-Legal! Pena que eu não posso! Meu pai vai me colocar para trabalhar no gabinete dele. - respondeu Hobbit.
-Ele quer fazer você trabalhar??? - surpreendeu-se Gina.
-É. Semana passada uns guardas me pegaram fumando. Meu pai abafou tudo e vai me colocar pra trabalhar para eu parecer um moço direito. Tudo para não manchar a reputação de senador dele.
-Ele devia fazer uma lei para liberar a maconha! - respondeu Ogro indignado.
Neste momento, um robô de aparência próxima à humana entrou no recinto.
-Senhor Roger, monitorei a saída de seu pai do senado. Ele deve estar vindo para cá.
-Galera, vamos sumir com a erva! - avisou Hobbit.
O grupo logo escondeu tudo. O robô começou a limpar o local.
-Cara, como você fez pro seu C.G.MEX ficar dando cobertura pra gente? - perguntou Ogro.
-Sou supermestre em programação! Faço esse bicho virar uma máquina de café se eu quiser.

CAP 2

Roger, ou Hobbit, como gostava de ser chamado, chegou tarde em seu primeiro dia de trabalho. Não chegou preocupado. Não era o emprego que queria. Na verdade, ele até gostaria de ser mandado embora.
Porém, Roger também era o filho do senador Altair. Ninguém naquele gabinete podia mandar o jovem embora, por mais incompetente que fosse e de má fé estivesse trabalhando.
Até a hora do almoço, ele saíra para tomar café três vezes, com 30 minutos a cada vez.
Saiu para almoçar 11h30 e voltou 15h. Tomou café mais duas vezes e foi embora 16h45.
Chegou em casa. Como não havia ninguém, aproveitou para fumar uma erva. Depois pediu uma pizza e foi jogar videogame.
Por volta das 21h, seu pai chegou. Ele estava viajando a trabalho e encontrou o filho cochilando no sofá com um joystick nas mãos.
-Roger! - chamou o pai com voz firme.
O jovem acordou assustado, deixando cair o controle.
-Pai? Que horas são? - perguntou atordoado.
-Hora de você crescer, Roger.
O jovem coçou a cabeça e bocejou:
-Qual é, pai? Eu já estou trabalhando que nem você queria...
-E muito mal, fiquei sabendo. Você não tem o menor respeito para com seus colegas.
-Ah, pai! Seus colegas políticos mesmos não levam isso tudo a sério!
-Realmente, alguns não. Mas vivemos tempos difíceis. E só respeitando nossos eleitores impedimos nosso país de cair na barbárie. Esta era de aquecimento global exige um representante do povo sério e trabalhador.
-Pelamordedeus! Guarde esse discurso pros seus eleitores! Eu sou seu filho!
-E por ser meu filho você é o primeiro a dar o melhor exemplo!
-Melhor exemplo... se você não se preocupasse tanto com sua imagem, mamãe ainda estaria viva!
-Chega! Vá para seu quarto dormir. Amanhã você acordará cedo e irá sair para trabalhar junto comigo.
Roger foi para o quarto. O senador sentou pesadamente no sofá. Pegou um porta-retrato na mesinha de centro onde havia uma foto dele acompanhado por uma graciosa mulher.
-Ah, Mara! Se eu soubesse, nunca teria pedido para você subir naquele palanque comigo. Levaria aquele tiro sozinho...

CAP 3

Morrendo de sono, Roger deu início a suas atividades às 7h45. O senador, quando estava em Brasília, gostava de chegar cedo a seu gabinete e ajudar na preparação para iniciar o dia. Conversava e ajudava as faxineiras, dava bom dia aos membros de seu gabinete a medida que chegavam, organizava as mesas para o bom rendimento dos funcionários, enfim, levava a sério a máxima que diz: o bom líder serve a seus liderados. Por tudo isso, era o político mais querido do Congresso.
Roger não ligava para nada disso. Emburrado, permanecia digitando fichas num velho computador em uma das mesas do gabinete. Por tudo isso, mal levantou a cabeça quando o presidente da república entrou e cumprimentou o rapaz com um sorriso.
Um pouco constrangido, o senador convidou o chefe do Poder Executivo para entrar em sua sala para conversarem. Minutos depois, muito animado, chamou o filho:
-Roger, venha cá! Você vai ficar muito animado!
O rapaz entrou na sala do pai, onde o presidente permanecia sentado numa cadeira em frente à escrivaninha do senador.
-O Excelentíssimo Presidente tem uma ótima novidade!
Sem expressar ânimo, Roger olhou para a autoridade. Este, um homem de estatura pequena e barba branca começou a falar com sua voz rouca.
-Na última década, desde que foi prevista a invasão alienígena, que será em dois anos, Brasil e Argentina se uniram para a construção secreta de naves colonizadoras. Vamos levar uma parte da população destes países e mais alguns para um planeta recém-descoberto pelos telescópios, no Braço de Sagitário, um braço da Via-Láctea vizinho ao nosso, o Braço de Órion.
Rogério continuou sem reação, para maior constrangimento do senador. Também um pouco sem jeito, o presidente continuou:
-Pelas nossas pesquisas, o planeta pode sustentar vida humana, porém, a viagem irá durar quase 10.000 anos. Todos permanecerão congelados e as naves serão administradas por robôs da série C.G.MEX. Você e sua família foram selecionados para esta viagem.
Rogério continuou sem expressão. Finalmente perguntou:
-É só isso?

CAP 4

-Pô, cara! Cadê a erva?
-Sacanagem, Hobbit! Prenderam o Hermano! Ele que ia trazer pra gente. - respondeu Ogro.
-Putz! Queria viver num país com droga legalizada!
-O que vamos fazer agora, meu?
-Nada, né? Meu pai é muito certinho pra ajudar a gente... - suspirou Hobbit.
-O que você estava fazendo?
-Fazendo uma lista da minha família...
-Ué? Pra quê?
-Meu pai me deu essa responsabilidade. Eu tenho que ver quem vai na nave com a gente.
-Nave? Que nave?
-É mesmo! Esqueci de contar! Os Bam-bam-bam do planalto estão criando uma nave espacial para levar um tanto de gente para fora do planeta, antes da invasão.
-Que legal, cara! Dá pra eu e a Gina irmos também?
-Você quer ir?
-Ah! É melhor que arriscar morrer quando os alienígenas chegarem.
Roger coçou o queixo.
-Por que não? Sou eu quem vai dizer quem é da família. Posso dizer que você e a Gina são primos distantes.
-Mas não tem limite de parente?
-Tem. Mas não temos tanta gente assim importante pra levar. Os tiozinhos mais velhinhos a gente deixa aqui mesmo. Vão morrer logo mesmo. Desperdício de espaço levar.
-Credo, cara! Sinistro isso que você disse!
-Bom, a orientação do presidente era dar preferência aos mais novos e saudáveis. Não vai ser uma viagem fácil. Vai ser preciso ser forte e resistente quando chegarmos lá.
-Mas não precisava falar assim. Tem muito tiozinho legal por aí.
-Você quer ir ou não?
-Quero. Quero sim.
-Então fica quieto, “primo” Ogro... - disse rindo.
Neste momento, entrou o robô C.G.MEX:
-Eu ouvi o mestre Hobbit elevar a voz. Algum problema?
-Nada não. Foi só um amigo que não veio... - explicou Roger.
O robô se foi. Ogro, de repente, ficou animado:
-Cara, tive uma idéia!
-O que foi?
-Lembra que você disse que queria morar num lugar onde a maconha fosse lega... Lego... Permitida?
-O que que tem?
-E se você achasse um planeta só pra você? Podia ter a erva que quisesse!
Hobbit levantou os olhos.
-Cara, não é uma má idéia... Eu podia ficar cultivando minha erva num canto do planeta onde a gente vai até achar outro pra mim...
-O difícil vai ser levar essa erva na nave sem ninguém ver...
-Deixa comigo! Já tenho um plano.

CAP 5

-Paizão, aqui está a lista de quem vamos levar. - disse Roger entrando no escritório do pai.
O senador estranhou o tratamento dado pelo filho, tão frio nos últimos dias. Ele pegou o papel, mas antes que o lesse, o jovem continuou:
-E eu também gostaria de pedir um favor: quero ajudar a trabalhar na nave.
Isso realmente surpreendeu o pai.
-Você não parecia interessado nesta viagem.
-Mas eu percebi o quão importante é isso. Além do mais, não foi você mesmo que disse que eu devia trabalhar?
O senador abanou a cabeça, ainda surpreso. Concordou:
-Bom, se você quer assim, vou enviá-lo ao Deserto do Atacama, onde as naves estão sendo preparadas. Você vai com um tutor para que continue seus estudos lá.
-Tem uma área em especial que eu queria trabalhar lá.
-E qual seria?
-Robótica. Eu sou muito bom com C.G.MEX.
-De acordo. Vou pedir ao presidente para designá-lo para esta área.
-Obrigado, pai.
-De nada. Agora vamos ver sua lista.
Esta era a parte crítica dos planos de Roger: seu pai não podia descobrir que seus amigos estavam na lista. Porém, o senador percebeu a discrepância:
-Quem são Alex e Gina?
-São primos distantes. Você não conhece.
O pai olhou para seu filho, encolhido ao lado da mesa. Deu um sorriso e disse:
-Tudo bem. Você deve ter tido bastante trabalho para fazer esta lista. Leve-a para a secretária para que ela despache para o presidente.
Roger suspirou aliviado.
-E peça para ela ligar também para ele. Preciso pedir sua nomeação para trabalhar nos robôs.

CAP 6

O avião de Roger chegou à tarde, mas o percurso de carro levou várias horas. Finalmente tutor e aluno chegaram ao campo La Cooperación, onde foram recebidos pelo general Assunção.
-Sejam bem vindos! Venham, vou levá-los a seus aposentos.
O tutor pegou suas malas. Um soldado carregou as malas de Roger.
O pátio era imenso. Como um deserto, a vista ia até o horizonte. Os alojamentos ficavam bem longe. Finalmente chegaram a um conjunto de casas dispostas em plataformas.
-Podem me levar logo para meu quarto? Estou muito cansado. - reclamou o jovem.
-Pois não. Escolhemos o melhor alojamento para você.
Seguiram para uma pequena casa. Ao contrário dos alojamentos dos outros trabalhadores, Roger teria uma casa toda para si. 
Porém, para o filho de um senador, aquela casa era muito aquém do esperado: ela tinha uma pequena cozinha com um frigobar e microondas, um banheiro minúsculo e um quarto com uma TV de 14 polegadas em cima de uma velha cômoda.
-É só isso? Não tinham, pelo menos, uma TV maior? - perguntou Roger indignado.
O tutor, um velho amigo do senador, tentou ser polido.
-Parece bem confortável, certo? - disse chamando a atenção do rapaz.
Roger torceu o nariz, mas concordou:
-Bom, o importante é a conexão com a internet que a televisão tem.
-Na verdade, esta TV usa antena parabólica. Mas não precisa se preocupar: ela pega a maioria dos canais abertos do Brasil e todos os abertos da Argentina! - disse o orgulhoso general.
-O QUÊ??? EU VOU PERDER MINHAS SÉRIES FAVORITAS???
-Tenho certeza que isso não será um problema. Certo, Roger? - disse o tutor chamando de novo a atenção do moço.
Roger suspirou.
-Bom, acho que posso assistir direto no meu netbook. Aqui tem wi-fi, pelo menos?
-Mas é claro! Posso dispor uma banda de 1 M para você. 
Roger arregalou os olhos. Estava acostumado com 300, 500 M. Mas antes que pudesse reclamar, o tutor puxou-o.
-Obrigado, general. 
-Agora venha comigo, Padre Monteiro. Vou mostrar suas instalações. - Disse o general ao tutor.
Monteiro não podia fazer muita coisa. Embora tivesse certa liberdade para disciplinar seu jovem aluno, este ainda era o filho do senador.
Roger ficou até tarde na internet. Ela estava muito lenta para seus padrões, além de estar limitado ao acesso de alguns sites.
-Cadê minha erva quando preciso dela?
Foi dormir frustrado. No dia seguinte, apareceu para seu primeiro dia de trabalho depois das 10 da manhã. Saiu para almoçar meio dia e só voltou às 15h. 16h30 já encerrou seu expediente, embora oficialmente fosse até 17h neste primeiro dia.
Não quis saber de estudar. No segundo dia repetiu a dose. Trabalhou das 10h ao meio-dia e, à tarde, quando ia começar seus estudos, inventou uma desculpa e escapou.
Foi assim durante toda aquela semana, que, aliás, Roger encerrou na quinta, quando saiu cedo para o aeroporto para voltar para casa. Terça à noite estava voltando para La Cooperación.
Com algum esforço, Monteiro conseguia dar aulas ao jovem, mas não havia o menor interesse deste nos estudos. Durante o almoço, reclamava da comida com o cozinheiro e ia comer isolado no refeitório.
Foi assim que Roger passou seu primeiro mês.

CAP 7

Uma coisa ficou clara para Roger pouco depois de começar a trabalhar: se o seu plano era levar mudas de maconha consigo e planta-las no planeta sem que ninguém soubesse, não bastaria programar bem o robô, mas também seria necessário mexer nos sistemas de suporte, afinal, seria preciso manter um compartimento da nave com para o cultivo da planta.
Num primeiro momento, Roger pediu ao pai para trabalhar também nesta área. Mas, à medida que o tempo passava, o jovem só recebia desculpas polidas para não conseguir trabalhar nesta área.
Ao final do primeiro mês, já estava bem claro que o estavam enrolando. Um dia entrou furioso na sala onde tinha aulas com seu tutor.
-Como é que pode, Monteiro?! Eu peço para trabalhar no suporte, mas só ficam enrolando!
-O suporte é um sistema crítico da nave, Roger. É preciso muita dedicação num sistema como esse.
-Mas eu posso me dedicar! Posso cuidar dos robôs e do suporte!
O padre coçou o queixo, pensativo. Logo falou:
-Acho que hoje podemos ter uma aula sobre redação. Eu gostaria que você escrevesse uma dissertação ao baseada numa história que vou contar.
Roger se assentou numa cadeira. Talvez ele não gostasse muito de estudar, mas ouvir histórias era mais leve que as matérias aos quais estava acostumado.
-Diga-me, Roger: conhece o termo "Fariseu"?
-Não. O que significa?
-Bem, na época de Jesus eram homens respeitadíssimos. Eram tidos como exemplos pelas virtudes que pregavam.
-Então Jesus gostava deles.
-Ao contrário: os abominava.
-Hein? Como assim?
-Embora os Fariseus pregassem amor ao próximo, eles desprezavam pessoas e as julgavam. Oravam em voz alta e davam esmolas na frente de todo mundo, mas raramente o faziam de coração. Gostavam de chamar a atenção para si e criar regras para todo mundo, embora eles mesmos não seguissem essas regras.
-Mas Jesus sabia da hipocrisia deles?
-Sim. E por isso os chamava de "raça de víboras".
-Interessante...
-Outro problema dos Fariseus eram sua superioridade: eles se sentiam a nata da sociedade.
-"Nariz empinado"?
-Sim. Eles não se relacionavam com pessoas que achavam inferiores. Eram muito arrogantes.
-Víboras mesmo! - concordou Roger.
-Bom, vamos ao exercício. Sua redação será baseada em três perguntas que devem ser respondidas no texto.
Roger pegou uma caneta e papel.
-Primeira pergunta: Por que Jesus não confiava nos Fariseus?
O jovem copiou, mas mentalmente respondia: 
-Porque eram hipócritas e arrogantes.
-Segunda pergunta: Você confiaria numa pessoa que fala uma coisa e faz outra? E numa pessoa que despreza você?
-É claro que não! - pensou o rapaz.
-Terceira pergunta: Você também diz que fará uma coisa mas seus atos têm dito outra coisa? Você trata as pessoas do mesmo modo que você gostaria de ser tratado? Ou seja, de igual para igual, ou quer mandar nas pessoas e não se enturmar com a gente à sua volta no seu dia a dia?
Esta pergunta acertou Roger em cheio. A conclusão é que o desprezível Fariseu era ele mesmo. O rapaz levantou a cabeça olhando atônito para seu mestre.
-Não precisa entregar sua redação agora. Pense bem nela. Vamos encerrar a aula por agora para que você possa refletir.
O padre foi até a porta e abriu-a para seu aluno. O jovem guardou seu material em silêncio e seguiu em direção à saída. Quando cruzou a porta, o padre o abençoou:
-Vá com Deus e que Ele lhe ilumine o caminho.

CAP 8

Roger dormiu mal naquela noite. Fôra dormir tarde, mas acordou bem mais cedo que de costume.
Quando chegou a seu pavilhão de trabalho, todos ficaram surpresos: chegou 7h30, quando a maioria chegava só 8 da manhã.
Trabalhou com afinco. Só saiu para almoçar 12h30, a pedido de seu encarregado.
No restaurante, não brigou com o cozinheiro, como costumava fazer. Ao contrário, elogiou a comida, deixando quem servia a comida bastante surpreso.
Ao procurar uma mesa, outra novidade: perguntou aos técnicos com quem trabalhava se podia sentar-se com eles.
-Si! Si! Por que no?- respondeu Josias, um técnico argentino que arranhava o português.
Enquanto comia, Roger tentava entender o que aqueles técnicos conversavam. Josias percebeu isso. Tentava traduzir, num "portunhol" lamentável o quedeis amigos diziam.
Os mundos eram bastante diferentes, afinal, a maioria dos técnicos vinha de famílias argentinas pobres ou de classe média baixa, enquanto que Roger sempre teve uma vida confortável no Brasil. A idade também não ajudava: os técnicos, em média, eram 2 a 3 anos mais velhos que o adolescente. Por conta de tudo isso, o filho do senador apenas escutava a conversa.
Porém, em determinado momento, a conversa tomou um rumo que era universal entre todos os argentinos e brasileiros, levando Roger a entrar na conversa:
-É claro que o Real Madri vai ganhar esse campeonato!
Todos voltaram a atenção para o filho do senador. Ele tentou repetir a frase num portunhol ainda pior, mas foi entendido.
Um dos técnicos discordou dizendo que o time era o que tinha menos pontos no campeonato. Com a tradução de Josias, Roger respondeu:
-Mas eles sempre dão a volta por cima!
Josias não entendeu a expressão. Roger corrigiu:
-O Real sempre consegue vencer.
A partir de então a conversa ficou mais descontraída. O filho do senador conseguiu entrar na conversa.
Ao longe, o general observava tudo. Quando o padre passou pelo militar, este comentou:
-Parece que seu pupilo finalmente está se enturmando.
-É um bom garoto. Só precisava de uma sacudida.

CAP 9

Nas palavras do padre, Roger mudou da água para o vinho. Trabalhava mais que o necessário, estudava com afinco à noite. Começou a voltar para casa só sexta e estava impecavelmente no horário na segunda.
Como Roger ficava pouco tempo no Brasil, uma vez que a viagem em si era longa, o general aconselhou o jovem a já partir na sexta. O rapaz aceitou, mas passou a voltar só a cada duas semanas. Com o tempo, passou a voltar só uma vez por mês.
Roger também investiu nas amizades. Depois de aprender melhor espanhol, passou a conversar nesta língua com seus colegas, que já chamava de amigos. Nos finais de semana que passava em La Cooperación saía com eles. Dependendo, dormia nos alojamentos deles sem se importar com o desconforto e o frio, este muito forte no deserto mesmo no verão.
Um dia chegou todo animado para sua aula com o padre. O rapaz havia sido aceito na equipe do suporte das naves.
-Parabéns. Seu esforço valeu a pena. Mas isto não pode prejudicar seu trabalho com os robôs?
-Não, porque eu já consegui preparar e programar todos.
-Já??? - surpreendeu-se o tutor.
-Há alguns detalhes mínimos de manutenção, mas é algo que toma muito pouco tempo durante a semana.
-Você trabalhou bem mais do que eu esperava.
-Tudo tem que estar perfeito. - respondeu, ainda pensando em seu plano original.
Embora ainda fiel à maconha (fumava sempre que voltava ao Brasil), Roger acabou amadurecendo. Tratava a todos de igual para igual e se habituara a isso. Seu melhor amigo era Josias, que melhorou bastante seu português.
Num sábado à noite, Roger e Josias fizeram um pizza no microondas do filho do senador. Depois de algumas rodadas de videogame, o técnico argentino, já um amigo bastante próximo, perguntou:
-Hobbit, você não parecia muito animado quando chegou. Você é filho de um político importante. Não precisava trabalhar aqui.
Roger não revelara a ninguém o plano, nem a Josias. Deu uma desculpa inventada há muito tempo:
-Do que me adiantava permanecer levando a vida que eu levava se tudo ia mudar quando os alíenígenas chegassem? Prefiro estar envolvido naquilo que me daria algum futuro.
-Parece que você já era mais maduro do que eu imaginava...
-E você? O que o trouxe para cá?
Josias pegou sua carteira no bolso. Abriu e mostrou a foto de uma bela morena.
-Quem é ela?
-Seu nome é Rosa. Ela é do seu país. Mora em Salvador.
-Ela é uma namorada?
-É minha noiva.
Roger deu um sorriso sarcástico:
-Ah! Então daquelas vezes que você tirou folga foi para encontrá-la, não é?
-Isso mesmo. Vamos nos casar em breve. Ela está esperando um filho meu.
-O quê? Vai casar forçado?
Josias ficou insultado:
-De maneira alguma! Amo essa mulher!
Roger percebeu que irritara o amigo. Voltou ao assunto original:
-Mas... o que ela tem a ver com você aqui?
Mais calmo, Josias sentou-se.
-Quero constituir família com ela. E a única maneira que eu via de nós vivermos em paz seria vir trabalhar nesta obra.
-Entendo... os trabalhadores e suas famílias têm lugar reservado na nave. Mas você não precisa estar casado com ela?
-Sim. E isso já está programado. Iremos nos casar duas semanas antes da partida.
Roger sorriu:
-Fico feliz por você. Tenho certeza que será um grande pai de família.
-E por falar nisso, há mais uma coisa que gostaria de lhe pedir, se não for muito incômodo.
-O que é?
Meio acanhado, Josias perguntou:
-Gostaria de ser meu padrinho?
Roger teve vontade de rir, mas conteve-se ante a seriedade do amigo.
-Mas é claro! Não perco isso por nada!

CAP 10

Roger já tinha 17 anos e a partida seria em 3 meses. Desde aquele dia, não parava de pensar com o que presentearia o amigo. Mesmo quando fumava com seus dois amigos brasileiros não vinha à mente nada de útil (na verdade, nestes momentos nada de útil podia ser pensado mesmo).
Assim, decidiu pedir conselho a seu mentor, o padre. Este pensou bem e lhe respondeu:
-Seu amigo lhe disse como seria a cerimônia?
-Seria um casamento numa igreja bonita perto de onde a noiva dele morava.
-E a festa?
-Festa? Acho que ele não deve dar nenhuma. Ele já estava apertado para conseguir trazer os parentes para a cerimônia.
-Taí. Você pode dar a festa.
-Eu???
-Sim. Posso falar com seu pai e ele terá o maior prazer em contratar um bufê.
Roger ficou animadíssimo! Foi correndo falar com o amigo. Porém, Roger nunca conseguiria dar as boas novas a Josias.
Naquele dia, os motores da uma das naves estava sendo testado. Como quase tudo estava pronto, somente restava conferir os funcionamento dos ítens chaves. Josias ajudava na parte elétrica do controle. Um grupo de técnicos fazia o acionamento e outro grupo fazia os ajustes necessários.
Como a nave usava um reator de fusão nuclear, não havia perigo de radição e o grupo de ajustes só precisava esperar esfriar os motores para ajustá-los. Antes do acionamento, o grupo no interior da nave fazia uma contagem regressiva de 20 segundos a fim de dar tempo dos técnicos lá fora saíssem do raio de ação dos motores. Josias estava no grupo externo.
Tudo ia bem. Em 20 segundos teria início outro teste dos motores e os técnicos já estavam protegidos. Foi quando algo inesperado aconteceu: uma criança, filha de um dos operários que moravam ali e recebiam visitas decidiu passear para conhecer o local onde o pai trabalhava e entrou nesta área de testes.
-Desliguem o acionamento! - gritou um dos técnicos pelo rádio.
-Não dá! O acionamento é automático!
Josias não teve dúvidas: saiu correndo. Pegou a criança e correu o máximo que podia. Quando a turbina foi acionada, caiu no chão tentando proteger a criança.
Roger viu tudo. Tão logo a turbina foi acionada, ela foi desligada. Correu para onde estava o amigo, caído. A criança chorava. Retirou-a: ela tinha apenas alguns ferimentos superficiais e queimaduras leves. Mas Josias não teve a mesma sorte: a roupa em suas costas havia derretido e sua carne estava com aspecto horripilante, com a ponta de alguns ossos da coluna à mostra.
-A criança está bem? - perguntou o amigo de Roger ainda com vida.
-Está! E você também vai ficar! - dizia Roger em desespero.
-Cuide da Rosa por mim... - pediu em espanhol.
E fechou os olhos.

CAP 11

Durante o outono, o chão daquele cemitério argentino ficava cheio de folhas coloridas. As árvores do local teimavam em manter algumas destas folhas em seus galhos, o que trazia algum alento aos amigos e familiares que vinham dar sua última despedida. Aquele belo cenário dava algum conforto àqueles que choravam.
Mas desde o aquecimento glogal não era mais assim. Toda a vegetação havia sofrido e o local de descanso eterno, agora, era povoado de árvores mortas. A única beleza que existia agora eram os túmulos, repetidamente caiados para manter sua cor branca esterelizada. O local que antes trazia alegria a crianças inocentes que não entendiam a morte, agora trazia medo a elas.
Foi num dia chovoso de outono no qual ocorreu o enterro do amigo de Roger. Ele mantivera silêncio desde que havia saído de La Cooperación. Era um dia frio. Felizmente, Roger havia trazido seu casaco.
Era muito difícil acompanhar o caixão daquele que havia sido seu melhor amigo desde que deixara o Brasil. Seus pensamentos traziam flashs de quando, feliz, trabalhava junto ao amigo.
Reunidos à beira da cova onde seria descido o caixão, o padre começou a dar suas palavras finais. Foi neste momento que a atenção do rapaz voltou-se para uma bela morena, um ou dois anos mais velha que ele, nos primeiros meses de sua gestação. Era Rosa, a sofrida noiva de Josias.
Roger não havia tido coragem de conversar com a moça, mesmo sendo o responsável por pagar a passagem para ela, uma vez que ela, de família humilde, não podia pagar. Naquele momento, ele viu que a moça estava tremendo. Mesmo bem agasalhada, uma nordestina não estava acostumada aos rigores do outono argentino. Silenciosamente seguiu até ela e colocou seu casaco em cima de seus ombros. A moça olhou para trás e agradeceu em silêncio, com o olhar triste.
Roger não sentia frio. Tudo que sentia era um horrível sentimento de perda. Ali, perto daquela que seria esposa de seu amigo, este sentimento era mais suportável. Sabia que não estava sozinho.
Ao final do enterro, Roger pediu à moça para levá-la para comer alguma coisa. Era preciso repor as energias, ainda mais ela que era uma gestante.
Rosa aceitou e foram comer num estabelecimento ali perto. Rosa até entendia bem espanhol, pois há anos namorava um argentino.
Durante a refeição, a moça pôde contar como o atrapalhado Josias a conheceu durante uma viagem de férias. Ele era muito engraçado, um peixe fora d'água na Bahia, mas seu amor foi arrebatador.
-A vida seria boa com ele... - entristeceu-se a moça.
-A vida vai ser boa para onde iremos. - tentou consolar Roger.
-Eu desejo boa sorte a vocês. - sorriu a moça.
-Como assim "deseja"? Você vem com a gente.
-Não vou. Eu não era casada ainda com Josias.
-Mas você está carregando um filho dele!
Rosa sorriu complacente:
-Roger, isso não é imigração. Eu não tenho laços oficiais com Josias.
O rapaz ficou em silêncio. Rosa respirou fundo e disse:
-Talvez tenha sido melhor assim. Se eu fosse, sempre me lembraria de Josias...
Roger olhou para a barriga da moça. Ela percebeu e abanou a cabeça.
-O que estou dizendo? Eu sempre vou me lembrar do Josias!
Dito isso, algumas lágrimas escorreram do rosto da jovem. Roger abraçou-a para consola-la.
-Obrigada por tudo que você fez por mim.
Mas Roger ainda não havia acabado. Ali, ele percebeu que ainda restava fazer uma coisa por seu amigo...

CAP 12

- De forma alguma! - foi a resposta do Senador
- Mas, pai! O Josias já tinha uma vaga para ele na nave! Qual o problema de dar essa vaga para a noiva dele? - protestou Roger.
- Veja bem, filho: não há laços oficiais entre Josias e a noiva. Mesmo que eu tivesse poder sobre o projeto, não ia adiantar nada. Há uma lista de espera para quem desiste ou morre antes de viajar, e esta vaga já foi repassada para outra pessoa.
- Isto não é justo! Josias entrou para o projeto justamente para poder levar Rosa para um lugar mais seguro! - respondeu abaixando a voz.
O senador respirou fundo e tentou ser político:
- Talvez esta seja uma benção disfarçada. Talvez a vida para onde vamos seja mais difícil do que para quem vai ficar aqui.
- Pode ser, mas Rosa não tem como escolher. - e saiu batendo a porta de casa.
Hobbit estava em Brasília. A viagem aconteceria em uma semana e nada do que ele tentou conseguira ajudar a noiva do falecido amigo. Estava frustrado. Precisava fumar uma erva. Foi à casa de Ogro.
- E aí, sumido? Beleza? - cumprimentou o antigo amigo.
- Estou num dia péssimo. Podemos fumar uma no seu quarto?
- Claro! Meus pais só voltam à noite. Entra aí!
Os dois jovens seguiram para o quarto de Ogro. Enquanto o dono da casa procurava pela maconha, Hobbit falava:
- Cara, que dia ruim! Eu...
- Espera um pouco mano: posso pedir uma coisa pra você?
- Claro. O quê?
- Pode deixar a Gina na Terra?
Roger deu um pulo de onde estava:
- O quê? Por quê???
- Cansei dela, mano! Quero umas minas mais gatas! E eu vi umas boas das fotos que você mostrou de quem vai viajar com a gente!
- Mas você namora ela há anos! Nem tem pena de deixar ela aqui na Terra?!
- Nem ligo! Eu acho que não vai acontecer nada mesmo...
- ACHA?!?
- O papo é o seguinte: ou vai ela, ou vai eu! E você eu sei que é meu "brother" desde que a gente era pirralho. Acho que sei quem você vai escolher.
Roger baixou a cabeça respirando fundo. De repente, ele levantou a cabeça: sua expressão mudara para pensativa e animada:
- Sabe... Estou precisando mesmo levar outra mulher com a gente...

CAP 13

O motorista passou relativamente tarde na casa de Ogro. Embora todos os viajantes tivessem que sair de suas casas de madrugada, o carro chegou à casa Do rapaz por volta das 4 da manhã.
Ogro havia dito a seus pais que iria acampar e forjou as assinaturas que autorizavam sua viagem. Sua família nunca ia saber o que lhe aconteceu. Ficaria desesperada. Mas Ogro era assim mesmo. Um monstro.
O motorista era o bom e velho C.G.MEX da casa de Hobbit. Este o esperava no banco de trás.
- E aí, mano? Beleza? - cumprimentou Ogro.
- Beleza! Meu pai deixou comigo um jatinho particular para levar a gente para a Argentina.
- Vamos nessa, então!
Hobbit pegou duas pequenas garrafas de bebida:
- Vamos comemorar a última vez que passamos por Brasília! Um brinde! - comemorou o amigo de Ogro.
- Um brinde! - respondeu concordando.
E ambos começaram a beber.
- Cara! Adoro esta bebida! - disse Ogro.
- Eu sei.
- Trouxe para a gente comemorar?
- Mais ou menos...
De repente, tudo ficou turvo para Ogro. Não consegui ficar consciente.
- Eu... Estou... Com sono?
- Está muito cedo. Por que não dorme?
E foi o que o rapaz fez de imediato.
- C.G., vamos retornar à minha casa! Precisamos deixar meu amigo Ogro lá.
- Ele está bem?
- Está. Só não vai se lembrar de nada quando acordar daqui a dois dias.
O robô deduziu:
- Boa Noite, Cinderela?
- É isso mesmo.
- Mas ele não poderá viajar conosco.
- Nas próprias palavras dele: Ou Gina, ou ele. Achei mais justo que fosse ela...

CAP 14

- Você se chama Alex? - estranhou o soldado à porta de embarque da nave.
- Sim! Esta é minha identidade! - mostrou uma moça morena com gravidez um pouco adiantada.
Enquanto o soldado conferia, Roger chegou puxando duas malas pesadas.
- Roger, filho do Senador brasileiro. O senhor eu já reconheço. - afirmou o soldado.
- Que bom. Conhece minha prima Alex?
- Eu estava conferindo a identidade. Parece que houve um erro no cadastro...
- Era pra ser um homem, não é? Acontece com freqüência. Muita gente não sabe que Alex também pode ser feminino. Eu levo ela lá dentro e resolvo esta confusão. Você tem muita gente pra receber e a fila está aumentando.
- Obrigado, senhor. - agradeceu o soldado. 
Uma vez dentro da nave, Rosa respirou aliviada.
- Eu achei que não ia conseguir...
- Não se preocupe. Eu já adaptei sua câmara de congelamento. Você e seu filho ficarão bem.
- Mas como você conseguiu esta identidade falsa para mim?
- Bom... Eu compro uns produtos com uns amigos que têm contato com outros amigos... - disfarçou o filho do senador.
- Eu não sei como agradecer a tudo que tem feito por mim... - mudou de assunto.
- Por vocês. O filho de meu melhor amigo está aí e vou protege-lo.
Rosa beijou o rosto de Roger.
- Josias tinha o melhor amigo que alguém poderia ter.
- Será, mesmo? - falou uma voz em tom irônico.
Era Gina. Estava mal humorada desde soube da traição do ex-namorado.
- Gina, você preferia ter ficado? - perguntou surpreso Roger.
Sua expressão ficou triste.
- Eu não sei. Fiquei muito aborrecida quando soube que ele queria me deixar na Terra pra morrer. Mas não sei se foi certo o que você fez. Talvez fosse melhor eu ter ficado mesmo...
- Menina! Aquele homem era um traste! Ninguém que fez aquilo com você merece seu sacrifício! Você tem mais é que agradecer o Roger aqui! - defendeu Rosa.
- Certeza que ela era namorada do seu amigo? - perguntou Gina em tom malicioso.
Sem jeito, Roger despediu-se e foi para sua sala de congelamento. A nave estava cheia de pessoas indo de um lado para outro. Robôs C.G.MEX cuidavam de distribuir o pessoal e informar onde eram suas salas de congelamento. Os mais ricos e poderosos tinham suas cápsulas dentro de salas privativas e com sistema extra de segurança. Os demais ficavam em salas com muitas unidades de refrigeração. Rosa e Gina ficaram nas gerais, enquanto que o senador e o filho tinham suas privativas.
Quando chegou à sua sala, Roger encontrou o pai.
- Desistiu de trazer seu amigo Ogro conosco?
Aquela pergunta gelou o sangue do rapaz:
- O... O senhor sabia o tempo todo que o primo Alex era meu amigo Ogro?
- Sim, mas pelo esforço que você dedicou a esta nave, achei que você merecia trazer seus amigos.
- E você sabe que trouxe a Rosa no lugar dele?
O senador sorriu:
- Aqueles meses trabalhando o transformaram num homem bem melhor do que eu esperava. Você sacrificou um amigo para ajudar quem precisava mais. Eu estou muito orgulhoso de você, filho!
Raramente Roger escutava um elogio tão sincero de seu pai. Guardou as malas num pequeno armário e pai e filho entraram em suas respectivas cápsulas de hibernação.
- Vejo você em 10000 anos! - despediu-se o pai.
Uma hora depois, toda a tripulação humana já estava hibernando. Neste momento, um robô C.G.MEX foi até o armário de Roger e retirou suas malas, conforme a programação do jovem. Arranjou uma sala e improvisou um vaso gigante para pôr a terra que Roger havia trazido e plantar uma pequena muda de maconha.

CAP 15

Enquanto respirava o ar anestésico de sua câmara de hibernação, Roger sorria. Ele planejara muito bem o que aconteceria dali pra frente.
À medida que as naves ficavam prontas, os robôs C.G.MEX cuidavam de esconder terra e recipientes por todos os lugares pouco visitados da nave. Embora o local de construção fosse num deserto, existiam muitas hortas que tinham a terra saqueada sistematicamente. Após a hibernação de todos, o centro de circulação de ar da nave, o local menos acessado de todos por humanos, seria o local onde se instalaria a horta de maconha. Era uma ideia interessante, uma vez que todo ar passaria por lá e poderia ser purificado pelas plantas.
Outra medida importante foi a redução da temperatura e da luz neste local. Não matava as mudas de maconha, mas as fazia crescer bem mais lentamente. Vez por outra uma planta seria sacrificada ou queimada para manter a terra com nutrientes e não afogar as plantas em oxigênio.
Roger fora dormir tranquilo. Sabia que ele seria o primeiro da nave a acordar. Assim, ele poderia encontrar primeiro um local no planeta para poder fazer seu cultivo em paz. Tudo havia sido perfeitamente planejado.
Ou, pelo menos, foi o que Roger pensara...

CAP 16

Roger abriu os olhos lentamente. Do lado de fora de sua câmara ele podia ver um vulto.
Seu corpo doía como se tivesse dormido muito, o que não era surpresa após tantos milênio. 
Lentamente abriu sua câmara. Ali estava seu fiel C.G.MEX, promovido a líder dos robôs que cuidavam da nave. O acionamento deste, assim como seu posto, fora cuidadosamente programado pelo jovem.
O aspecto do robô já não era mais o mesmo. Com todo cuidado e operações de manutenção, o C.G.MEX era um rascunho do que fora sua aparência. Partes amassadas aqui e ali, roupas em forma de trapos, mostrando um corpo bem robótico, além de manchas de desgaste e um olho queimado à mostra por dentro.
- Seja bem vindo, mestre Hobbit! - saudou o autômato.
- C.G., você não fez reparos em si?
- Eu economizei um pouco, uma vez que as peças de reposição são limitadas. Ainda temos algumas em estoque, mas procuramos fazer reparos somente quando era muito necessário.
- Entendo. 10.000 anos é muito tempo.
- Na verdade, para nós, foram apenas cerca de 7.000 anos. Viajamos a 70% da velocidade da luz. Para quem ficou na Terra, sim, se passaram 10 milênios. - corrigiu o robô com seus cálculos relativísticos.
- Isso se sobrou alguém vivo lá... - comentou o jovem. - Mas deixa para lá. Em quanto tempo chegaremos?
- Devo dizer que chegaremos a nosso destino em 5 dias e...
- Cinco dias??? Por que me acordou tão cedo??? Dois dias já estava muito bom!!!
- Senhor, eu...
- Ah! Deixa para lá! Preciso fumar uma erva! Faz milênios que não fumo!
- Senhor, acho melhor...
- ... que você me leve até minha horta. E em silêncio, ok? Estou com um pouco de dor de cabeça.
O robô assentiu com a cabeça e começou a escoltar Roger pela nave. Em pouco minutos, a dupla chegou a um portal branco muito largo. O C.G.Mex acionou um botão e a entrada se abriu. O centro de circulação de ar da nave parecia uma floresta!
- Caramba! Esse negócio cresceu um bocado!!! - surpreendeu-se o jovem, muito animado.
Porém, a empolgação logo deu lugar ao medo. Um barulho pareceu ter feito a nave tremer. Roger somente não caiu no chão pois estava usando botas magnéticas, que criavam uma tênue ilusão de gravidade artificial.
- O que foi isso???
- Era o que eu queria dizer: há cerca de uma hora uma frota alienígena está tentando falar conosco.

CAP 17

- Por que não acordou a tripulação??? - gritou o jovem em desespero.
- O senhor foi muito claro em minha programação: ninguém deveria ser acordado antes do senhor.
- Então acorde a todos agora!!!
- Não posso. Não até que o senhor deixe esta nave com suas plantas. Está na programação também.
Roger não havia imaginado que seu plano o colocaria em perigo e a todos os humanos que haviam restado. Seu amor por aquela erva o havia cegado para tal possibilidade.
- Realmente esse vício pode matar!... - balbuciou.
Correu, então, para a sala de comando com o C.G.Mex logo atrás. Dependia dele a sobrevivência da humanidade, mas sequer pensava nisso agora. Embora houvessem se passados milhares de anos, ele ainda sabia como ativar o comunicador.
O sistema era inteligente o suficiente para detectar faixas de transmissão. Computadores avançados cuidavam de descriptografar o sinal, porém era um sistema lento. O som logo era obtido. As imagens vinham aos poucos.
Logo, uma voz se fez ouvir:
-MAREV! GHORTA KATRAG! GANATEG PRANTER KOR AMARTENOM! IDETORA FRFRT KOR SOLJOR AGRITO!
Roger olhou espantado para o robô. Nunca ouvira aquela língua antes.
-O que eles disseram???
-Não faço idéia.
-Como assim??? Os computadores não fazem tradução???
-Eles somente conseguem entender o sinal. Tradução é um processo muito longo.
E neste momento a tela começou a apresentar quem havia enviado aquela mensagem: Um alienígena grande, amarelo, com pele que parecia feita de placas, vestindo uma roupa branca. Próximos a ele estavam um pequeno alien com um grande nariz, verde, e cheio de dedos, usando óculos escuros, e outro cinzento, cujas feições lembravam um elefante com uma microtromba e pequenas orelhas. Estes se destacavam, mas a cena estava cheia destas criaturas esquisitas.
Não foi apenas Roger que ficou surpreso. A transmissão, uma vez codificada, funcionava para os dois lados: A criatura amarela, que parecia ser o líder, olhava curioso para o humano e a criatura robótica parecida com este. O narigudo verde tomou um susto enquanto o cinzento parecia muito atento e admirado.
Num ato de desespero, Roger pegou o microfone e gritou:
- Por favor, não nos mate! Viemos em paz! Somos fugitivos do planeta Terra!!!
O amarelo virou-se para o alienígena-elefante e comentou:
- LI! UJIRM KROM KOR CROMOTER. IDETORA KROM SAERTY HO KIRHOTA.
O alien cinzento continuava atento, com seus olhos de pupilas negras arregalados, com a atenção dominada por aqueles seres.
- VICONE JTORG ILO MAREV KIRO. PRANTER KOR HO FUIRT YERTOK FRFRT MEREVER.
- O que será que eles estão conversando? - perguntou retoricamente Roger.
- Ainda sem saber, senhor. - respondeu o autômato.
Neste momento, o alienígena amarelo começou a fazer gestos: primeiro apontou para Roger. Depois apontou para o lado. Com os dois braços, fazendo um semi-círculo com cada braço, traçou no ar um grande círculo e, depois, no local que traçara, começou a fazer voltas ao redor. Repetiu esta sequencia de gestos duas, três vezes.
O jovem olhou para o C.G.Mex. Perguntou:
- Está entendendo?
- Ele parece que quer que nós sigamos para algum lugar para dar voltas... - tentava interpretar o robô.
Roger parecia se concentrar. Parguntou:
- C.G.Mex, na direção que ele está apontando existe algum corpo celeste próximo?
- Os sensores dizem que há um gigante gasoso neste sistema.
- Talvez ele queira que nós entremos em órbita deste planeta. Você consegue comandar daqui as outras naves para fazermos isso?
- Perfeitamente senhor.
- Então faça.
Conectando-se ao terminal, o robô parecia entrar em transe ao dar os comandos necessários. Logo as naves começaram a alterar a rota. Novamente o alienígena amarelo falou:
- TOMOTE. NYRTO DOIETO. TYTY KRITO KAMARTO KUOR. - e encerrou a transmissão.
Roger ainda ficou tenso por alguns instantes, mas logo viu que o ataque havia parado.
- Será que estamos seguros?
- Ainda sem dados suficientes. - respondeu o robô.
- Preciso fumar alguma coisa!...

CAP 18

Nespler não viva seus melhores dias. Havia muita tensão em seu cotidiano.
Tudo teria tido início com sua promoção para almirante. Após anos servindo no corpo militar da Confederação como capitão de uma modesta nave, o Kabraq de pele amarela, quase dourada, havia se destacado após salvar uma colônia do ataque de piratas Zortars.
Foi assim que ele conquistou o direito de organizar uma frota com sede no planeta Banol, mundo colonizado por Kabraqs, localizado no sistema mais afastado do centro da galáxia dentro do território protegido pela Confederação.
O problema era lidar com Lukat, almirante-chefe Ilkage, que estava dando apoio nesta organização. Embora fosse tarefa de Nespler criar a frota, o almirante chefe de pele cinzenta teimava em se meter em tudo. Embora uma característa desta raça fosse arrogância, Nespler acreditava que Lukat era arrogante demais até em relação a seus compatriotas.
Uma ou duas vezes o jovem almirante pensara em denunciar, ou simplesmente espancar seu superior. Várias vezes fora contido por Zantev, seu amigo esverdeado da raça Pazenv, oficial de comunicações de sua nave. 
Zantev sabia que Lukat era bem relacionado no corpo da Frota e, se ele não achasse o novo almirante adequado, não só este seria rebaixado como Banol poderia dar adeus a uma frota da Corporação fazendo a segurança e aquecendo a economia da pobre colônia. Havia muito em jogo ali.
Naquele dia, Nespler fôra acordado com um estranho e perigoso alerta: Naves enormes haviam adentrado o sistema Banol e não estavam se identificado ainda. Quando chegou à ponte de comando, lá estava o rival na direção do show.
- Acordou cedo, senhor. - saudou Nespler ainda atordoado de sono.
- Ilkages dormem pouco, almirante. - respondeu com certa superioridade.
Sem dar atenção, voltou-se para Zantev:
- Alguma comunicação? Temos mais informações?
- Nenhuma senhor. Eles apenas seguem em direção a Banol. No atual curso, chegarão em cinco dias. As naves são muito lentas.
- Quanto tempo para interceptá-las?
- Estávamos bem próximos delas. Como já ordenei isso mais cedo, devemos chegar em poucos minutos. - antecipou-se o ilkage.
Nespler apertou as unhas contra a palma das mãos, um sinal Kabraq de raiva contida. Zantev percebeu. Tocou uma das mãos do jovem almirante e, com um movimento da cabeça, fez o Kabraq entender que uma briga ali não valeria a pena. Nespler engoliu e disse com toda a paciência que ainda lhe restava:
- Obrigado, senhor. Não é sua atribuição comandar também esta pequena frota, mas fico feliz que esteja aqui... - agradeceu com uma ironia quase invisível.
- Eu sei. É preciso que haja alguém para cuidar de tudo enquanto o almirante dorme. - respondeu com calma irritante.
- Temos imagens das naves? - Nespler perguntou alto para seu amigo Pazenv, tentando mudar de assunto.
- Vou pôr na tela, senhor.
A imagem tridimensional da nave surgiu. Aquilo intrigava o almirante: nunca vira uma nave com aquelas configurações.
- Já viu algo assim, almirante-chefe?
- Definitivamente não. Em todos estes anos que servi o corpo da Confederação, nunca vi nave alguma como estas.
- Podem ser zortars?
- Duvido. Suas naves são pequenas e rápidas, para ações de pirataria. Estas estão mais para uma invasão.
- Invasão? Por que acha isso?
- Naves tão grandes só podem se justificar pelo transporte de tropas. Talvez alguma raça nas imediações do nosso território esteja querendo tomar o planeta Banol.
- Uma guerra iminente? É tudo do que preciso... - resmungou.
- Já estamos ao alcance de nossas armas, senhor. - cortou Zantev.
- Armas? Ainda nem entramos em contato com eles! - indignou-se Nespler.
- Entramos sim. Há uma hora atrás tentamos nos comunicar e eles não responderam. Isso é claramente uma demonstração de hostilidade. - chamou a atenção o ilkage.
- Não estou disposto a abater uma nave sem antes tentar todos os recursos, senhor Lukat.
- Ah, sim. O senso de justiça Kabraq. Não o censuro por tomar tal decisão. Qualquer um de sua espécie faria isso. É claro que não é o que um ilkage como eu faria...
Nespler teria arrancado a pequena tromba do rosto de de Lukat se Zantev não tivesse gritado:
- SENHOR! VEJA ESTAS LEITURAS!!!
A atenção do jovem almirante voltou-se para a tela do Pazenv. Não via nada, mas conseguiu ouvir seu amigo cochichar:
- É uma briga o que ele quer...
Nespler, mais controlado, voltou-se para o oficial de armas.
- Saraiva de tiros próximos à nave mais à frente. Isso deve chamar a atenção deles.
Os tiros foram lançados. As explosões ocorreram conforme o esperado, sem danificar a nave.
- E agora? - perguntou Lukat.
- Vamos esperar alguns minutos para ver se eles querem conversar conosco agora. - posicionou-se Nespler com firmeza.
Passou-se um minuto. Dois. Três. Lukat, em silêncio, olhava o almirante com tal firmeza que começava a desestruturar o Kabraq. Ao final do quarto minuto, Nespler começava a articular as palavras de ataque quando Zantev, novamente, salvou o dia do almirante:
- Senhor, eles estão abrindo um canal de comunicação!
Imediatamente enviou a mensagem:
- Nave! Pare! Continuar é um ato de guerra! Este é o último aviso!
A imagem na tela dos ocupantes da outra nave se formou. Nespler ficou boquiaberto com o que viu: um alienígena de uma raça que ele nunca vira em sua vida, e um robô parecido com ele, mas parecendo uma sucata. Zantev quase caiu de susto, mas Lukat observava aos visitantes com uma atenção assustadora.
O alienígena começou a gritar, numa língua desconhecida. Podia ser qualquer coisa, desde um rugido de fúria a um grito de desespero. Não havia como saber. Nespler voltou-se para Lukat, que parecia hipnotizado pelo que via no monitor.
- Eles não são de uma raça conhecida. Não conhecem a nossa língua.
Lukat, ainda em êxtase, respondeu um pouco depois:
- Vieram em muitas naves. É nosso dever destruir essa frota.
Essa, sem dúvida, era a pior decisão que Nespler precisava tomar em sua vida até ali. Matar milhares (ou milhões) de alienígenas desconhecidos, talvez inocentes, para garantir a segurança do planeta e de seu lugar naquela frota, ou tentar salvar inúmeras vidas arriscando tudo? Realmente não queria ter saído da cama naquele dia.
Foi quando ele teve uma idéia: estavam próximos de um planeta gigante gasoso. Talvez por gestos conseguisse fazer aquelas criaturas entenderem a entrar em órbita do corpo celeste e ganhar tempo até entende-las completamente.
Apontou para os seres que via. Depois apontou para fora. Desenhou no ar uma grande circunferência simbolizando o planeta e depois fez giros no lugar onde desenhara o astro para simbolizar órbita.
Refez os sinais mais três vezes, ficando mais angustiado a cada repetição. Se aquilo não desse certo, seria o fim daquela raça.
Foi quando um milagre, operado pelos Deuses Gentis na visão Kabraq, aconteceu: as naves alteraram o curso e seguiram em direção ao gigante gasoso. Uma grande sensação de alívio percorreu o corpo de Nespler.
- Por favor, aguardem. Logo enviaremos um intérprete.
Fez sinal para encerrar a ligação. Após Zantev desligar o monitor, o kabraq pôde perceber que era observado com certa hostilidade pelo ilkage.
- Almirante Nespler, o senhor deu mais tempo a eles. Isso pode vir a ser um grande erro.
- O erro seria maior se os destruíssemos sem ao menos tentar saber o que eles querem.
- Está proscrastinando. Não há como entende-los. São de uma raça desconhecida cuja língua é ainda mais obscura.
- Então seremos os primeiros a lançar luz sobre eles. - respondeu confiante e determinado.

CAP 19

Há décadas QnuBo tentava a cadeira de reitor da Segunda Universidade da Confederação. Era o maior linguista daquele setor, mas ainda lhe faltavam trabalhos publicados que agradassem a comunidade científica.
Isso não era surpresa. Por vezes, os colegas deste reservado ilkage tentavam lhe explicar que tudo o que produzia precisava ter resultados práticos, mas embora as conclusões fossem brilhantes, apenas despertava a curiosidade de outros catedráticos como ele.
Suas aulas eram abarrotadas de idéias e conceitos teóricos, ou seja, muito chatas. Parecia que só os alunos ilkages não dormiam na aula, não porque esta lhes fosse interessante de alguma forma, mas porque o metabolismo desta raça a fazia ter períodos de sono mais curtos.
Foi num destes dias de pura frustração QnuBo teve uma reviravolta em sua vida.
Cansado, preparou seu banho. Quando ia tirar a roupa, o videofone de seu alojamento tocou. Ao atender, encontrou um antigo aluno.
- Nespler? O que meu dedicado aluno deseja com este antigo mestre? - saudou o professor de maneira cortês e pragmática, como todo ilkage.
- Professor, os Deuses Gentis foram generosos em permitir encontrá-lo. - respondeu Nespler com cortesia Kabraq.
- Soube que chegou a almirante. Este reconhecimento é merecido.
- Pois é sobre meu trabalho que eu gostaria de lhe requisitar ajuda.
- E como posso ajudá-lo?
- Bom, mestre... em minha última missão eu encontrei naves alienígenas de uma raça totalmente desconhecida pela Confederação. Tentamos contato, mas nenhum dos dois lados conhece a língua um do outro.
QnuBo ficou pensativo. Sabia onde aquela conversa ia chegar. Perguntou sem rodeios:
- Está precisando de mim para estabelecer esta comunicação?
- É isso mesmo. Preciso que aprenda a língua deles, ou que ensine nossa língua para eles.
O mestre não parecia muito interessado naquele trabalho. Não queria ficar longe da Segunda Universidade, tentando alçar o cargo que mais queria. E muito menos entrar em contato com uma raça desconhecida, que podia tanto ser amigável quanto hostil.
- Almirante, acho que posso lhe fornecer nomes mais adequados a esta tarefa. Acho que existem outros linguistas próximos a Banol que poderão ajudar mais e...
- Com todo respeito, mestre - interrompeu o kabraq - mas só posso contar com o senhor. É o único linguista ilkage no qual confio.
- Mas... porque você precisa de um ilkage?
- Estou tendo muitas complicações aqui com meu superior. Como ele também é da sua raça, ele não irá implicar com minha escolha.
QnuBo continuou em dúvida. Porém, um trabalho de campo poderia vir a ser justamente o que precisava para publicar uma tese prática que permitisse finalmente ser nomeado reitor. Por fim, se decidiu.
- Tudo bem, Nespler. Mas quero ter toda segurança quando eu vier a entrar em contato com essa raça.
- Isso eu posso garantir, mestre.

CAP 20

Em dois dias a viagem de QnuBo teve início. Não havia uma janela direta no hiperespaço que levasse diretamente a Banol. Foram necessárias duas escalas, mas em 10 dias o ilkage chegou a seu destino.
O catedrático ficava imaginando o que faria quando colocasse os pés naquela nave. Escutava repetidamente a mensagem que o alien enviara e a conversa que ele tinha com seu imediato robótico. Não era possível nenhuma conclusão exata até aquele momento. Era preciso escutar mais para formar uma opinião.
Pensava também em como ensinar a língua kabraq a eles. Essa era a língua utilizada naquele sistema estelar, além de ser muitíssimo mais simples que a língua Pazenv, que tinha uma palavra para quase tudo no universo, e o ilkage, com tantos sinais vocais que qualquer um se perderia.
QnuBo não precisou esperar quando desembarcou no planeta colonizado por Kabraqs. Dois soldados, um Pazenv e outro Kabraq, aguardavam pelo linguista. Mal conversaram e o levaram para uma nave auxiliar. Em 12 horas encontrava Nespler e seu rude superior.
- Que os Deuses Gentis o tenham conduzido bem. - fez o kabraq uma reverência de profundo respeito colocando os braços cruzados com os punhos nos ombros.
- Agora que o senhor chegou podemos provar que tudo isso é perda de tempo. - disse Lukat sem reverência alguma.
Segurando sua mala, QnuBo sentou-se numa cadeira na sala dos oficiais.
- Por favor, Informem-me o que aconteceu durante os últimos dias.
Nespler tomou a frente:
- Eles mantiveram órbita conforme nossas exigências. Eles não tentaram fazer mais nada depois disso. 
- Ou seja, estão esperando o menor deslize para iniciar seu ataque. - concluiu o almirante-chefe.
- Eles não me pareceram hostis, almirante-chefe. Os sinais vocais fazem parecer que estavam em situação de tensão. Como seguiram as ordens não verbais do almirante Nespler, acho que estão tão surpresos conosco quanto nós. Provavelmente tenham vindo em naves colônia em busca de um planeta e não sabiam que este sistema já era colonizado. - comentou QnuBo.
- Ou seja, é uma invasão, como eu estou dizendo.
- Acidental, senhor.
- Irrelevante. Eles querem dominar este sistema e estarei preparado quando eles tentarem. Logo uma frota Ilkage chegará a este sistema para guardá-lo. - e se retirou.
Um pouco embaraçado pela atitude de seu superior, Nespler dirigiu-se a seu antigo mestre. Este, antes que qualquer coisa fosse dita, tomou a frente.
- Dias difíceis, não é?
- Bastante.
- Entenda, Nespler, seu superior é um ilkage e ilkages nunca erram. Quando erram é por desleixo. Seu superior não pode admitir que é desleixado.
- Entendo, mestre. Mas, mesmo para ilkages, insistir num erro também é arrogância, um pecado maior que o desleixo.
- Talvez para ilkages e kabraqs de modo geral, mas desleixo pode ser inadimissível para militares.
- Entendo... Devo ter piedade e não raiva.
- Bom, colocado assim por um kabraq com fé nos Deuses Gentis, está correto.
- Certo. De qualquer modo precisamos descobrir mais sobre estes alienígenas. Se sua hipótese estiver certa, talvez possamos conduzi-los a outro planeta desabitado.
- Podemos ter problemas neste sentido: Não sabemos quanto combustível as naves deles ainda têm, qual sua velocidade máxima e tão pouco se ainda há planetas disponíveis no território protegido pela Confederação.
- Um problema de cada vez. Em uma hora levaremos o senhor até a escotilha de entrada de uma das naves e o senhor poderá ter o seu primeiro contato.
- Mas já? Não pode ser perigoso ir entrando assim, de qualquer forma, numa nave desconhecida? Eles podem achar que o ato é hostil.
- Nossos técnicos criaram uma animação em computação gráfica mostrando que vamos embarcar na nave principal deles. Como não houve reações, acredito que eles já tenham entendido. Mas fique tranquilo. O senhor será conduzido por meus melhores homens.
QnuBo ainda temia. Embora parecesse que os alienígenas estivessem vindo em paz, não se podia descartar que ali pudesse ocorrer uma armadilha que sequestrasse a ele e outros soldados.
Uma hora depois, QnuBo seguia em uma nave auxiliar até seu destino. Durante a curta viagem, pensava em como seria sua primeira abordagem. Decidiu fazer o cumprimento de respeito Kabraq, uma vez que aqueles sistema era colonizado por estes. Ele encontraria os alienígenas, cruzaria os braços colocando os punhos na altura dos ombros e diria: "TOMOQUE!".
A nave auxiliar era modelo GITH 404, com acoplagem universal. Esta podia encaixar-se seguindo a curvatura de qualquer nave, pressurizando uma ante-sala ligada a uma das entradas da nave. A dificuldade dos marines, neste ponto, talvez fosse descobrir como abrir a escotilha.
Quando um dos soldados começou os procedimentos para verificar como abrir, percebeu que os alienígenas já estavam fazendo isso.
- Um ato de boa vontade. - deduziu QnuBo.
- Ou de guerra. Todos: preparem as armas! - respondeu o encarregado daquela missão.
O catedrático tinha mais certeza de sua opinião. Seguiu à frente para realizar o cumprimento que havia preparado quando um ser robótico abriu a porta. Foi quando teve uma surpresa: o robô cruzou os braços com os punhos nos ombros e disse:
- TOMOQUE!

CAP 21

O sotaque era forte, mas as palavras eram completamente intelegíveis. Qnubo, surpreso com aquele cumprimento na língua Kabraq, perguntou:
- Você fala nossa língua???
- Confesso ter tido um pouco de dificuldade para entender alguns termos que surgiam no meio de todas as frases faladas por vocês...
- Oh, sim. Nós chamamos de Estruturas de Polidez. São um traço cultural forte dos Kabraqs, que são muito educados.
- Kabraq é a raça de seres amarelos que vivem aqui, certo?
- Sim. Mas se sabia tanto, porque não conversou conosco quando as naves de vocês entraram no sistema? Poderiam ter sido destruídos.
O robô olhou em volta. Viu vários militares apontando objetos para ele. Deduziu que fossem armas.
- Parece que ainda corremos esse risco...
- Tenente, por favor, peça a todos para baixarem as armas. - perdiu o estudioso.
- Tão logo ele explique o porque do seu silêncio e o que fazem aqui. - insistiu o encarregado, segurando seu fuzil.
- Na verdade, senhores, durante os dias que passamos aqui temos recebido transmissões de áudio e imagem de seu planeta. Passei todo este tempo analisando tudo a fim de aprender a língua de vocês. Ainda não consegui aprender muito bem, mas já consigo conversar com vocês. - explicou o autômato.
- E por que estão aqui? - continuou tenso o militar.
- Talvez seja melhor sentarem. Eu explicarei tudo. - disse sentando-se, sem cerimônias, no piso da nave.
- Prefiro ficar de pé.
- Como o senhor quiser. Como posso chamá-lo?
- Tenente Soke.
- Tenente Soke, pode me chamar de C.G.Mex, é o meu modelo de fabricação, em homenagem a Caio Gomes, herói das colônias marcianas.
- Colônias marcianas? Explique!
- Tenente, são quase 200 anos de história. O senhor não acha melhor que eu explique apenas porque estamos aqui?
- Concordo. Pode explicar, C.G.Mex. - respondeu QnuBo antes que Soke pudesse responder.
O robõ, então, começou a contar sobre como a Terra soube que seria invadida e, num ato desesperado, como o Brasil e mais um pequeno consórcio de países decidiu fugir para um planeta que parecia desabitado, que poderia suportar sua forma de vida.
- Parece-me que vocês não tiveram culpa ao vir para cá. As informações que vocês recolheram na Terra vinham com atraso de 5000 anos devido à distância, somando a 10.000 anos de viagem, vocês estão defasados em 15.000 anos. - comentou QnuBo.
- Seu planeta deve ter sido colonizado nesse meio tempo. - deduziu o robô.
- Na verdade, se viessem 72 anos mais cedo, poderiam ter reclamado este planeta para si. Esta colônia existe aqui desde então.
Porém, o tenente continuava com a arma apontada. O estudioso censurou:
- Tenente. Ele já nos explicou o incidente. Pode baixar a arma. Confio nele.
- Mas eu ainda não. - continuou o militar.
QnuBo foi até ele e, com a mão, forçou a arma, abaixando-a.
- Tenente, Nespler me concedeu poderes para liderar esta equipe se assim o achasse necessário. Por favor, abaixe sua arma.
Em silêncio, o militar guardou-a.
- Eu vou ficar para conhecer este povo. O senhor pode voltar com a nave auxiliar.
- Senhor, isso é inaceitável!
- Tudo bem. Deixe dois seguranças. E apenas isso. é uma ordem.
Soke concordou. Designou os dois melhores da equipe para a escolta. Alguns minutos depois, ele partia para entregar seu relatório a Nespler.
- Seu tenente parece agressivo. - comentou o C.G.Mex.
- Você tem sorte que ele seja um Kabraq. Se fosse um ilkage como eu seria bem pior. - sorriu QnuBo.
- Eu tenho algumas botas magnéticas no depósito. Posso arranjar para vocês, embora eu ache difícil achar o número adequado para seus dois seguranças com dois metros e meio de altura.
- Não se preocupe. Nós também usamos botas magnéticas em nossas naves.
- Bom, em que poderei ajudar?
- Eu quero aprender sua língua, para me comunicar melhor. Mas, por enquanto, eu gostaria de conhecer o seu outro amigo, que estava com você durante o primeiro contato.
- Deve estar falando do mestre Roger. Está no refeitório comendo. Ele sempre faz isso depois que... desculpe, é uma ação cuja palavra não consegui aprender em sua língua.
- Pode descrever?
- Ele queima uma amostra de planta e respira a fumaça.
QnuBo achou este ato muito estranho. Primeiro porque fogo em uma nave pode ser muitíssimo perigoso. Segundo, o hábito de fumar não existia na Confederação.
- Acho que a palavra é... fumar. É um ato que não se pratica há centenas anos.
- Leis para manterem as pessoas saudáveis? 
- Não exatamente... a Confederação é composta de três raças: Kabraqs, que é a raça dos meus dois seguranças aqui, Ilkage, a minha raça, e Pazenvs.
- Aqueles verdes?
- Isso mesmo. Os Pazenvs são vegetarianos e têm uma constituição física delgada. Fogo os intoxica mais rápido do que a ação de substâncias químicas podem lhes dar prazer. Logo, esta raça não desenvolveu este hábito.
- Entendo. Mas estes kabraqs parecem ser bem ao contrário.
- Até demais. Kabraqs são imunes a veneno. Logo, só um grande incêndio poderia afetá-los. Fumar não traz prazer algum. 
- Vocês, ilkages?
- Num passado muito distante, este hábito até já existiu.
- E por que deixou de existir?
- Devido à nossa filosofia. Acreditamos que, por termos sentidos muito apurados, entendemos tudo no universo. Uma mente sã teria a capacidade de analisar tudo e chegar a conclusões perfeitas. Quando erramos, acreditamos que foi desleixo: não analisamos corretamente todas as informações.
- Acho que entendi. E uma mente sã não pode se envenenar com substâncias que a afetem.
- Correto. Para se ter uma idéia, é tabu para nós beber qualquer bebida alcoólica.
- Que interessante! 
- Mas, diga-me: por que sua nave tem tantos ruídos?
C.G.Mex estranhou. A nave era muito silenciosa. Olhou para os guardas, que também estranharam o comentário.
- Seriam os sentidos aguçados do senhor? - questionou o robô.
- Não sei... está muito baixo.
Virou-se para seus seguranças para perguntar se eles não estavam escutando. Nisso, QnuBo assustou-se.
- Viram? O som ficou um pouco mais agudo!
O guardas ficaram um pouco confusos.
- Senhor, para mim aqui está tão silencioso quanto um cemitério. - disse um deles.
- A única coisa que sinto é um cheiro um pouco estranho... - comentou o outro.
- Oh, sim. Meu mestre andou fumando por aqui. Venham. Ele está atrás depois daquela porta...
QnuBo voltou-se para o robô e o barulho agudo cessou. Decidiu não falar nada. Poderiam questionar sua sanidade.
Finalmente entraram no refeitório, o local mais alegre da nave. Projetado para reunir uma pequena tripulação que seria, em tese, responsável por conduzir as naves durante a chegada ao seu destino, o ambiente era bastante colorido e descontraído, com agradável som ambiente. Seria ali que os astronautas relaxariam após um dia duro de trabalho. Porém, para QnuBo, ali não havia nada que lhe agradasse. A sala parecia imersa numa enorme algazarra de sons e barulhos desconexos.
- Vocês gostam de se alimentar em locais com tanto barulho assim? - perguntou alto o ilkage.
Os guardas não conseguiam entender. O som conseguia relaxar até a eles. Preocupado, o robô perguntou:
- Deseja que eu desligue o som ambiente?
Nisso, Roger, ainda um pouco alterado por ter fumado, chegou. Disse algo que QnuBo ainda não conseguia traduzir. Agora o Ilkage sentia o gosto de carne com frutas em sua boca. Amigavelmente Roger chegou bem perto do catedrático e lhe estendeu a mão. Foi o suficiente para o tradutor cair desmaiado.

CAP 22

Qnubo abriu os olhos lentamente. A cabeça doía muito. Mas parecia que aquele ruído ambiente finalmente havia cessado. A seu lado estava o robô C.G.Mex e um dos seguranças. Olhou em volta e percebeu que estava num simplório quarto.
- Onde estou?
- Aqui é um dos quartos destinado à tripulação. Era o mais próximo de onde estávamos. - explicou o robô.
O ilkage esfregou os olhos. Perguntou:
- Quanto tempo fiquei desacordado?
- Quase três horas. - respondeu o guarda.
- Foi quase uma noite inteira de sono ilkage. O que aconteceu comigo?
- Nós não sabemos. Esperava que o senhor explicasse. - continuou o guarda.
- Eu não sei direito... Comecei a ouvir um barulho alto no refeitório e senti um gosto ruim na boca. Eu simplesmente apaguei depois disso.
- Pode ter contraído um vírus deste povo? - questionou o militar.
- Impossível! A nave foi perfeitamente esterilizada antes de partir e, durante os 7000 anos que se passaram na nave, rastreei todos os sinais de contaminantes possíveis. Nenhum humano está portando qualquer doença. - protestou o robô.
Nisso, Roger entrou no quarto um pouco desarrumado com os cabelos molhados e despenteados.
- C.G., dá pra você pedir para esse guarda sair do meu pé? Mal tomei banho direito!
O robô fez a tradução e QnuBo pediu para seu segurança dar espaço ao jovem humano.
Neste momento, um comunicador tocou. Um dos guardas atendeu e passou para QnuBo.
- É o almirante Nespler. - entregou o guarda.
O ilkage começou a conversar na língua Kabraq, língua esta ainda desconhecida por Roger. C.G.Mex conseguira aprender a língua, mas era um robô. Ainda não tivera tempo suficiente para aprender.
- C.G.Mex, ele está bem? Esses guardas estão me olhando torto desde que ele caiu no chão.
- Disse que está sim. Ele também não sabe a causa do incidente.
QnuBo desligou. Com visível dificuldade devido à enxaqueca, começou a se levantar.
- C.G.Mex, por favor, mostre-me seus arquivos. Preciso aprender logo sua língua.
- Por quê?
- Embora os seguranças do almirante Nespler tenham levado a história de vocês aos ouvidos dele, o almirante-chefe deste setor quer interrogá-los pessoalmente. Tenho 23 dias para servir de intérprete entre vocês e ele.

CAP 23

Durante os dias que se seguiram, QnuBo estudou com afinco a língua portuguesa. Esta parecia mais simples do que todas as outras línguas utilizadas. Se os humanos fossem aceitos na Confederação, dariam uma excelente contribuição com sua língua.
Porém, o linguista achou algo pitoresco em seu trabalho: o único humano a bordo acordado parecia não se importar em conhecer a língua kabraq, utilizada naquele setor do espaço.  Ao contrário, parecia querer permanecer fechado em seus aposentos fazendo sabe-se lá o quê.
Finalmente, na véspera da audiência, QnuBo procurou o ser artificial C.G.Mex.
- Posso ajudá-lo, mestre QnuBo? - perguntou em Kabraq.
- Aquele humano, de nome Roger. Onde ele está? - falou em português.
- Está no observatório interno. Seguindo por aquele corredor.
À medida que o ilkage seguia o caminho, novamente escutava os ruídos que ouvira durante seu primeiro contato com a nave. Era curioso como quando passava por áreas mais escuras o ruído abaixava, e aumentava em áreas mais bem iluminadas. Por outro lado, era sempre um barulhão quando passava perto dos aposentos do humano. Na verdade, os locais mais visitados por Roger sempre eram ensurdecedores.
- Preciso ir ao médico assim que terminar esta missão. - pensava.
Finalmente encontrou o rapaz debruçado num parapeito. Olhava para a grande quantidade de  cilindros de êxtase onde estavam todos os humanos ainda em animação suspensa. QnuBo pôde perceber que o humano acabara de sair do banho pois seus cabelos estavam molhados. Tentou puxar assunto:
- Vejo que está usando uma roupa nova.
- Sim. Acabei de tirar de minha mala. - respondeu distante.
Um silêncio inquietante se fez. Após alguns segundos, QnuBo voltou a falar:
- Um real pelos seus pensamentos.
Roger ficou surpreso. Deu um leve sorriso:
- Você aprendeu esta expressão estudando nossa língua?
- Sim.
Roger suspirou. Apontou para uma direção:
- Vê aquelas cápsulas ali embaixo? São os melhores amigos que fiz quando trabalhei com afinco na construção desta nave. Porém, uma delas é ocupada por uma pessoa da qual nunca ouvi falar.
- Alguém que você não encontrou durante a obra?
- Não... ali devia estar o melhor amigo que já fiz em minha vida. Porém, um acidente o matou pouco antes do final de tudo. Com a vaga liberada, colocaram um desconhecido da lista de espera para ocupá-la.
- Hum... entendo. Em sua cultura é uma grande tristeza a morte de alguém próximo.
- Sim, É verdade. Como é na sua?
- Os ilkages também têm um período de luto, mas ele é curto. Cuidamos de planejar como será o futuro a partir deste evento.
- Bola pra frente. 
- O quê?
- Outra expressão humana. Traduz exatamente essa filosofia de vocês. Parar de se lamentar e seguir com a vida.
- E fez algo nesse sentido também?
- Bom... por conta de uma regra idiota, queriam deixar a noiva de meu amigo, grávida dele, para trás. Cuidei de enganar o sistema e consegui que a embarcassem. - disse com certo orgulho.
- Interessante! Como fez isso?
O sorriso de orgulho se desfez:
- Eu... deixei outro amigo amigo na Terra...
Um novo silêncio surgiu. Desta vez, foi Roger quem o rompeu:
- Enganei meus amigos e coloquei os sobreviventes da humanidade em risco. Acho que era eu quem devia ter ficado...
Após alguns segundos, QnuBo repetiu:
- "Bola pra frente!"
Talvez tenha sido o uso da frase recém aprendida naquele momento caótico, ou somente o sotaque engraçado do ilkage, mas aquilo tirou um sorriso da cara triste do rapaz.
- Tem razão. Milhões de vidas dependem de mim agora. Como estão os preparativos para a conferência?
- Conforme o esperado: já conheço sua língua e seu servo mecânico a língua kabraq. Porém, teria sido útil que você também tivesse aprendido...
- Eu tentei, mas eu me perdi assim que comecei. Sou péssimo com línguas. Apanhei bastante para aprender espanhol, e olha que era uma língua muito parecida com a minha!
- Então teremos que depender de mim e do seu robô. Nossas conversas ficarão bastante lentas fazendo a tradução para ambos os lados a cada fala.
De repente, uma idéia surgiu na mente de Roger.
- Ei! E se meu robô traduzisse tudo?
- Como eu disse, o tempo dele traduzindo para cada ouvinte...
- Não! E se ele fizesse isso durante as falas? Um tradutor simultâneo?
- Mas ele não pode falar enquanto os outros estão falando. Quem estiver à mesa ficaria confuso ouvindo duas vozes ao mesmo tempo em língua diferentes.
- Não se cada um escutasse tudo somente na língua que deseja ouvir.
- Como assim?
- Nós, humanos, temos pequenos dispositivos eletrônicos que podemos colocar nos ouvidos. Chamamos de ponto eletrônico. Se o C.G.Mex estiver presente, ele pode fazer a tradução simultânea e enviar para os aparelhos presentes na sala. Não importa língua que se fale, só se escutará a língua que se entende!
QnuBo ficou pensativo. Logo disse:
- Também temos dispositivos auditivos assim. Podemos programá-los para receber as transmissões enviadas pelo seu robô...
- Então o que estamos esperando? Mãos à obra!
- "Mãos à obra"? É um sinônimo de "bola pra frente"?

CAP 24

Nos 23 dias que se passaram, a notícia dos alienígenas que fugiram de seu planeta percorreu a área da galáxia compreendida pela Confederação das Três Raças. Os ilkages ficaram curiosos e apreensivos  na comitiva que vinha do misterioso planeta chamado Terra. Os Kabraqs queriam conhecer tal raça, saber o que era verdade e se discutia onde abrigar os pbres infelizes. Já os Pazenvs nem queriam saber. Detestavam novidades e nem queriam pensar em ter mais um povo com quem lidar.
Tal comoção levou os principais dirigentes daquela área da galáxia a enviar representantes para conhecerem ao ser chamado de humano e seu autômato assistente.
Assim, o interrogatório planejado por Lukat acabou tendo de abrigar tais embaixadores. Os Kabraqs foram além, enviando o presidente do planeta Banol para tal conversa.
Assim, a bordo da Nau Capitãnia do sistema Banol, Roger e C.G.Mex, e QnuBo, assentaram-se em cadeiras do lado direito de uma sala redonda, enquanto que Lukat, Nespler e os representantes do lado esquerdo. Tão logo se assentaram, o almirante-chefe começou sem qualquer cerimônia:
- Finalmente eu gostaria de pôr um fim a esta perda de tempo: quais são suas reais intenções?
Roger estranhou um pouco, mas respondeu:
- Deve ser o Lukat. Nós já dissemos: fugimos de nosso planeta pois ele seria invadido por uma raça alienígena.
- Isso é bobagem. Quero saber de verdade...
Porém, o ilkage foi interrompido pelo próprio representante dos ilkages:
- Conte-nos em suas palavras como se deu esta fuga. Como souberam da fuga? Como se prepararam?
Roger então começou a contar o que os armazenadores didáticos contam até hoje: seu mundo estava emergindo de um desastre ambiental chamado Aquecimento Global, um telescópio colocado em uma órbita de Plutão mostrou as primeiras imagens de um planeta habitado além do sistema solar e pegou suas transmissões. Transmissões estas que, uma vez traduzidas, anunciaram a invasão de uma misteriosa raça alienígena com grande longevidade e que viajavam próximos à velocidade da luz. E, ao final, como se soube nestas mensagens que o próximo alvo era a Terra.
- Bobagem... - comentou Lukat.
- E por que vocês não tentaram ficar e defender seu planeta? - perguntou o presidente de Banol, ignorando o almirante-chefe.
Pensou bem no que ia dizer. Relembrou todo o clima de morte que rondava o planeta e ele, infantilmente, tentava ignorar.
- Não sabíamos o que esperar: sabíamos que o planeta que estava sendo invadido tinha tecnologia suficiente para transmitir ondas de rádio anunciando sua guerra, mas era mais atrasado ou mais adiantado que nós? E se era mais adiantado, talvez nem tivéssemos chance de contra-atacar. Esta fuga é uma tentativa de preservar a raça humana.
- Ou vocês são como pragas? Usando nossa compaixão para explorar nossos mundos como piratas Zortars? - indagou novamente o superior de Nespler.
Neste momento, a calma de Roger acabou de uma vez por todas. Ele socou a parede atrás de si e se levantou:
- Escute aqui, ô almirante sei lá do quê: nós, que estamos aqui, deixamos um mundo que era só nosso para trás! Estávamos reconstruindo ele com todo nosso esforço quando fomos obrigados a fugir! Perdi vários amigos! E não sou só eu! Naquelas naves há pessoas que deixaram tudo correndo o risco de nem sobreviveram! Agora você nos acusa de sermos bandidos? Devia se olhar no espelho para ver o que é um marginal!
Lukat ficou sem fala. Um borburinho se fez entre os representantes, mas o presidente da colônia Kabraq tomou a palavra exaltado:
- Ele está certo! Não é justo acusá-los sem provas!
O mais calmo daquela sala, o representante ilkage perguntou:
- Há como comprovarmos que o senhor está falando a verdade?
Roger pensou por um momento. Respondeu:
- Nossos computadores têm arquivos com toda a história da humanidade. Vocês mesmos podem olhar.
- Tudo plantado para nos enganar! - continuou Lukat, exaltando-se.
- Isso é o que vamos descobrir, senhor Lukat. - disse, finalmente, o representante Pazenv.
Recuperando a pose, o almirante-chefe acalmou-se:
- Está certo. Enviarei minha equipe ilkage pessoal buscar os dados na nave principal. Por enquanto, eu gostaria que o humano e o seu servo descansassem em uma de nossas suites até que minha equipe esteja pronta para ir com eles até sua nave.
Nespler sorriu. Era a primeira vez que via seu superior voltar atrás.
- Senhor Roger, C.G.Mex, eu gostaria de lhes apresentar os aposentos. QnuBo, por favor, nos acompanhe.
Roger estava animado:
- Parece que consegui impressionar o presidente daquele planeta.
- Os Kabraqs são muito justos, Roger. Cometer uma injustiça destas seria imperdoável. - explicou QnuBo.
- Que os Deuses Gentis nos livrem de algo tão abominável. - concordou Nespler.
Os aposentos indicados eram bastante confortáveis: uma cama ao centro com tecido de cor púrpura lembrando cetim e paredes da mesma cor faziam um leve contraste com uma pequena mesa de tampo oval e um pequeno sofá de cor marrom levemente claro. Uma janela dava uma vista exuberante das estrelas e do planeta gigante de onde estavam próximos.
- Que delícia! - disse Roger pulando na cama.
- Obrigado pelo conforto. - agradeceu o robô, sentando-se no sofá.
- Se precisarem de algo, podem pedir ao soldado. Deixarei um próximo à sua porta. - disse Nespler.
O almirante continuou, caminhando com QnuBo em direção a seus aposentos.
- O que você acha, QnuBo? Devemos confiar neles?
- Pelo tempo que estive lá, parece que estão sendo sinceros. O humano parece ser um pouco irresponsável, mas ele é jovem para os padrões de sua raça, que me parece uma característica comum entre eles pelo que estudei.
- Senhor, não acha que isso seja ilegal? - perguntou C.G.Mex.
- Ora, C.G., duvido que exista maconha nesta região da galáxia. Como ela pode ser ilegal? - disse Roger acendendo um cigarrinho que trazia escondido na roupa.
Nespler chegava à ponte. Lukat desligava o comunicador, encerrando uma ordem.
- O senhor está enviando sua equipe?
- Isso mesmo, senhor Nespler. Acabei de dar minhas ordens.
- Fico feliz que o senhor finalmente tenha dado uma chance aos humanos...
- E quem disse que eu dei?

CAP 25

- O que quer dizer, Lukat??? - pela primeira vez, Nespler não usava o adjetivo "senhor".
- Pela sua reação, acredito que já esteja supondo. Mas vou dizer assim mesmo: enviarei minha tropa pessoal para retirar as naves deste setor, enviando-as de volta ao planeta que eles chamam de Terra, ou algum outro mundo perdido na galáxia.
- Mas... os representantes da Confederação estão dando uma chance a eles!
- Às vezes o senhor se esquece que somos uma Confederação e não uma Federação. O único poder compartilhado e reconhecido entre as três raças é o militar. Não há uma administração política ou comercial central, assim, o poder a nós investido é superior aos destes meros representantes. Se eu achar que os humanos são uma ameaça a nós, posso tomar esta minha decisão. - respondeu com frieza.
- Mas isto é um ultraje! Posso pedir ao Comando Central que interrompa sua operação! - começou a elevar a voz.
- Sim, você pode. Mas, além de colocar em risco a sua carreira caso o Comando me apoie, é inútil: mesmo que eles ordenem que eu pare, esta ordem só chegará tarde demais: as retransmissoras de mensagens MRL (Mais Rápida que a Luz) não estão alinhadas o suficiente para que sua mensagem chegue a tempo.
Nespler estava furioso. Saiu em silêncio, em discreto desacato, pois não pediu para se retirar a seu superior.
O Kabraq encostou-se na parede de um corredor vazio. Conversas tidas com QnuBo nos últimos dias deixavam claro que os humanos não tinham como fazer seu caminho de volta. Mesmo que os reatores de fusão durassem mais 10.000 anos, os robôs que cuidavam de toda manutenção já haviam deixado de existir. O último C.G.Mex dava conta através do controle de sistemas automáticos nas naves, mas uma já havia se perdido na viagem e aquele robô amigo do humano já não duraria muito mais tempo. Estava claro para Nespler que seu superior iria cometer genocídio dos últimos humanos que ainda restavam na galáxia e não podia fazer nada.
Fez uma silenciosa oração aos Deuses Gentis suplicando por misericórdia. Por algo que salvasse os humanos. Por fim, seguiu para o quarto onde estavam Roger e seu autômato. Ao entrar, sentiu um aroma estranho.
- Que cheiro é esse?
Roger estava emburrado. C.G.Mex tomou a palavra.
- Meu mestre estava fumando um cigarro feito com uma erva terrestre.
- Fumar??? Isso é proibido dentro de naves espaciais!!! É muito perigoso!!! - assustou-se Nespler.
- Foi exatamente o que aquele soldado Kabraq disse depois que sentiu o cheiro saindo daqui. Nem deu pra ficar numa boa... - retrucou o humano.
- A que devemos sua ilustre visita, almirante? - perguntou o robô com educação.
Nespler, então colocou a par Roger e seu amigo dos planos de seu almirante-chefe.
- Mas que safado! Bem que o QnuBo nos avisou! Cobra venenosa! - gritou o jovem.
- Cobra venenosa? - perguntou Nespler alheio à fauna terrestre.
Neste momento, um velho ordenança ilkage, empurrando um carrinho cinzento com comida dentro de vasilhas escuras e foscas entrou. Ele estava concentrado no carrinho, fazendo uma cara de quem não estava entendendo alguma coisa.
- A comida que o senhor pediu... - falou fechando os olhos e esfregando as orelhas.
- Eu estava com a maior "larica", mas depois desta notícia, até perdi a fome... - comentou Roger.
Porém, o ilkage ao abrir os olhos e olhar o quarto, teve uma reação completamente inesperada:  começou a gritar:
- Que barulho grave é esse???
Nespler ficou muito surpreso. Correu e agarrou o ordenança, que estava com os olhos esbugalhados:
- Fique calmo! Diga o que está acontecendo!
O ilkage olhou para Nespler e gritou mais ainda:
- Não! Barulho agudo agora não!!! - e desmaiou.
C.G.Mex aproximou-se surpreso.
- O que aconteceu?
- Eu não sei. Ele estava reclamando de barulhos... exatamente como QnuBo em sua nave... - percebeu o Kabraq.
- O que está querendo dizer? - perguntou Roger desconfiado.
- Eu não tenho certeza... mas será que os humanos carregam algum tipo de moléstia que só afeta os ilkages e não aparece nos nossos exames? - questionou o almirante.
- Bobagem... se fosse assim, os ilkages na reunião que tivemos exibiram a mesma reação. - respondeu C.G.Mex.
Foi quando Nespler teve uma idéia:
- Espere: Roger, o senhor fumava estes cigarros em sua nave?
- Sim. E daí?
- E estes cigarros têm algum efeito embriagante, como o álcool?
- Bom... mais ou menos...
- Sim. Esta erva tem efeitos adversos no cérebro. - respondeu C.G.Mex, incisivo.
- C.G.Mex... - disse Roger com um olhar de censura.
- Então é essa a resposta: embriaguez ilkage! - disse Nespler.

CAP 26

- Embriaguez Ilkage? - estranhou Roger.
- Os ilkages, por terem sentidos muito aguçados, têm uma estrutura cerebral diferente. Sob efeito de álcool ou outra substância entorpecente, os ilkages começam a misturar seus sentidos. - explicou Nespler.
- Quer dizer que o cheiro que deixei neste quarto e na nave está deixando os ilkages... doidões?
Nespler não entendeu bem o que Roger quis dizer. C.G.Mex desenvolveu um pouco a idéia:
- Você quer dizer que para cada coisa que eles vêm, escutam um barulho diferente?
- No caso da sua droga, parece-me que cada cor produz um barulho diferente. Quanto mais forte for a cor, mais barulho eles escutam. - deduziu o comandante.
- Alguns humanos têm isso naturalmente: chamamos de Sinestesia.
- Peraí! - manifestou-se o jovem humano - Isso quer dizer que quando a tropa do Lukat entrar na nossa nave, eles vão perder os sentidos como esse sujeito aí? - apontou para o ilkage recém caído.
- Não... o cheiro teria que estar muito forte... A nave teria de estar cheia de fumaça... - continuou o Kabraq.
Roger pôs a mão no rosto. Torceu os lábios. Não queria aquilo, mas era a única salvação da humanidade.
- E se... enchermos a nave de fumaça?
O robô imediatamente entendeu onde seu mestre queria chegar:
- Senhor! Foram mais de 7000 anos de cultivo!
- Do que vocês estão falando? - questionou o Kabraq.
Roger pegou seu celular e mostrou uma foto. Era o local onde se encontravam as ervas cultivadas ao longo dos séculos.
- Isso parece uma floresta! Isso tudo está dentro da sua nave???
- Sim. É a erva que causa esse efeito nos ilkages. Elas estão no centro principal de distribuição de ar da nave. - respondeu o humano.
Nespler pensou por um segundo. Logo disse:
- Isso pode dar certo!... Se todos da equipe de Lukat forem imobilizados, posso enviar um esquadrão kabraq para resgatá-los e colocar a nave em quarentena até que eu consiga uma ordem direta do Corpo da Frota da Confederação deixando vocês em paz!
C.G.Mex interveio:
- Não é algo tão simples: para tal efeito, calculo que teríamos de pôr fogo em toda a plantação. Eu também precisaria anular os protocolos de segurança para fazer a fumaça se espalhar pela nave.
- C.G.Mex, é nossa única chance. Eu também odeio essa idéia, principalmente depois de todo trabalho que tivemos até aqui para trazer esta erva. Mas se não fizermos nada, vamos morrer todos.
O robô concordou:
- Como o senhor quiser. Precisamos chegar à nave. Há uma entrada que leva direto ao centro de distribuição de ar da nave. De lá, posso me esgueirar até a ponte de comando onde posso desativar os protocolos.
- Não será fácil. A equipe de Lukat está pronta para matar... - comentou Nespler.

CAP 27

Era necessário uma movimentação que não despertasse suspeitas. Para tal tarefa, Nespler designou um homem de confiança, enquanto permanecia na ponte, abafando qualquer informe dos sensores.
Uma nave com um pequeno contêiner de carga saiu disfarçadamente da nave-mãe levando como carga um humano e seu robô.
Enquanto seguiam, Roger permanecia pensativo com um sorriso maroto. O robô modelo C.G.Mex percebeu e usou uma velha expressão humana:
- Um tostão pelos seus pensamentos.
O jovem sorriu:
- Tostão? Que expressão mais antiga, C.G.!
- Ela faz parte de minha pré-programação. No que está pensando?
- Na ironia de tudo isso. A planta mais perseguida no planeta Terra agora será a salvação da humanidade...
- Bombas atômicas também levavam à manutenção da paz entre as nações, mas isso não significa que elas eram boas.
Roger estranhou. Nunca vira seu robô ir contra seus hábitos.
- Você é contra o uso da maconha?
- Sim.
- Mas você nunca disse nada...
- Sou um robô. Sigo as três leis da robótica. E uma delas é sempre servir o ser humano. Mas isso não significa que eu não possa ter estabelecido minha opinião.
- Provavelmente outra coisa pré-programada...
- Não. Este conceito eu criei observando seu uso da erva. Durante o tempo que você trabalhou na Argentina você fez pouco uso da droga. Comparando sua produtividade profissional e pessoal quando você usava e quando você não usava, pude estabelecer que estes cigarros que fuma lhe causam problemas.
Roger ficou em silêncio diante daquele sermão robótico. Robôs não tinham emoções, logo, aquelas palavras eram puramente lógicas. E lógica não é simples opinião.
- Talvez este seja o meu momento de crescer...
A nave tremeu. Eles haviam chegado. Por uma escotilha, tiveram acesso ao local onde estavam as plantas.
- Tem como botar fogo em tudo isso? - perguntou o robô.
- Sempre trago comigo meu isqueiro. Deve ser suficiente.
- Aqui há uma máscara de ar. Eu sei que o senhor gosta de aspirar a fumaça desta planta, mas tal incêndio pode ser mortal. Por esta porta há uma pequena ante-sala onde o senhor também pode se proteger do fogo.
- Eu sei. Conheço bem esta nave.
C.G.Mex seguiu até uma saída de ar e disse:
- Devo seguir para a sala de comando. Devo chegar lá sem problemas. Mas posso ser destruído quando chegar lá e encontrar soldados. Assim, aguarde meu sinal no celular e mantenha a porta desta sala trancada para que mais soldados não entrem.
- Eu tenho certeza que você consegue! Vamos sair desta nave dando risadas destes otários!
- Assim espero. Boa sorte. E entrou no duto de ventilação.
Roger disfarçava, mas sabia que as chances eram contra ele e seu robô e, embora fosse só uma máquina, sentia uma forte amizade.

CAP 28

C.G.Mex tinha noção de que aquela seria sua última missão. Após 7000 anos, segundo seu relógio interno, suas funções chegariam ao fim.
É claro, ele não tinha como se lembrar de cada detalhe. Ele era um robô, e não um supercomputador. Quando iniciou a viagem, tratou de bolar um plano de contingência: manteria as memórias se sua real identidade antes de dar início à viagem e, depois, manteria disponível apenas memórias da última década.
Todos os dias ele baixava no computador da nave as memórias do 3650º dia anterior e o apagava, deixando espaço para armazenar o próximo dia. Se viesse a precisar se lembrar, bastaria acessar o computador da nave que ali permaneceria a informação.
Porém, após chegar ao sistema estelar onde estavam, esta rotina foi interrompida e as memórias continuaram permanentes. Nada muito sério, uma vez que ainda tinha capacidade para armazenar ainda mais dez anos.
Agora, naquele duto de ar, o robô elencava em sua memória rápida o que era mais importante: como desativar os protocolos de segurança e encher a nave de fumaça.
Ele também se lembrava de outra coisa: era preciso fazer de tudo para não matar os soldados que estavam ali. Se isso acontecesse, uma grande antipatia poderia pôr fim à aceitação dos humanos naquele sistema e seria o fim da humanidade. Por isso, não poderia se defender, e por isso aquela missão era suicida.
Naquele momento, o robô gozava de uma "alívio lógico":  não ter emoções. Se assim fosse, talvez viesse a se perder em pensamentos e sentimentos tristes e poderia colocar em risco a missão. Não, tudo que precisava saber era que era necessário salvar a humanidade, mais importante que a auto-preservação. Muito simples e prático.
Por outro lado, seu mestre não gozava deste "alívio lógico". Como humano, Roger ainda tinha emoções, como medo de ser morto pelos soldados, e medo de perder seu melhor amigo. Por isso, não parava de olhar seu celular à espera do sinal de C.G.Mex, nem parava de olhar pela fresta da porta com medo dos soldados detectarem sua presença.
Na verdade, isso foi seu erro: ao olhar, um soldado solitário o percebeu. Roger trancou as portas rapidamente e desconectou as travas automáticas. Os barulhos na porta mostraram-se ainda mais assustadores!
C.G.Mex já havia chegado à sala de comando e estava procurando uma maneira de entrar. Qualquer ruído poderia chamar a atenção daqueles soldados de sentidos tão apurados. E haviam dois deles ali: um vigiando e outro tentando invadir o sistema da nave.
Neste momento, o rádio de um deles tocou e começaram a conversar numa língua estranha. Não era a mesma dos Kabraqs que o robô havia aprendido. Devia ser dos ilkages.
Após a troca de palavras, o vigia saiu correndo pela porta, sem perceber que o robô havia usado o barulho da conversa para se esgueirar para dentro daquela sala.
Roger podia ouvir conversas atrás daquela porta. Ele não sabia, mas os soldados só não haviam ainda atirado em virtude da segurança dentro de uma nave espacial. Porém, logo eles achariam um jeito de entrar.
Pegou seu isqueiro e correu na direção das plantas. A fumaça poderia salvá-lo daqueles guardas, mas se queimasse antes da hora, seus planos de salvar a humanidade iriam por água abaixo. Ficou em posição para iniciar o incêndio.
Felizmente C.G.Mex não precisava usar um terminal. Bastava conectar-se a um para começar a dar comandos e monitorar toda a nave. Tão logo conectou sua tomada USB, percebeu porque o soldado saíra correndo: haviam detectado seu mestre. Era mais urgente salvá-lo agora!
Os ilkages do lado de fora da sala das plantas já estavam achando um meio de abrir aquela porta quando uma delas, perto deles, dando num recinto sem iluminação, se abriu. Não conseguiram ver nada lá, mas perceberam um vulto chegando perto da porta e correndo de volta para dentro. É claro que os soldados não ficaram parados e correram atrás do vulto. Um vulto que não passava de um robô dedicado apenas à limpeza da nave.
Com este truque, C.G.Mex salvou Roger, mas condenou a si mesmo, pois o soldado que restava no recinto percebeu algo errado no computador e foi atrás descobrir o que acontecera.
O robô não perdeu tempo: inundou o computador com os comandos necessários para desativar os protocolos de segurança. A última coisa que C.G.Mex ouviu foi um grito e, logo depois, o impacto de uma arma. Em seus últimos segundos de vida, fez algo que seu mestre, há muito tempo, colocara em sua programação: levantou o dedo médio de sua mão biônica para o soldado e se desligou em seguida.
Foi neste momento que Roger recebeu o sinal em seu celular. Em menos de um minuto, colocou fogo na floresta de maconha e se protegeu, colocando fim àquela erva e à invasão não autorizada dos ilkages.
A humanidade estava salva!

CAP 29

Tão logo deixou o humano e o robô na nave, Nespler retornou e selecionou uma equipe de soldados de sua confiança. Ele sabia que, se o plano desse certo, teria que ser o primeiro a atender o pedido de ajuda dos ilkages invasores. Só assim ele poderia garantir que a nave fosse interditada, ganhando tempo para pedir ajuda ao comando da Confederação.
Assim, ele não saiu de perto da estação de comunicação de sua nave. Aparentemente, a noção de tempo se estica praticamente em todas as raças do universo durante momentos de ansiedade.
O tempo passava e nada acontecia. A única coisa que restava ao militar era rezar a seus Deuses Gentis.
Finalmente algo aconteceu. O painel de comunicação sinalizou uma chamada. Antes que o oficial encarregado pudesse averiguar, Nespler perguntou incisivo:
- O que está dizendo o chamado?
- Os ilkages enviados pelo almirante-chefe. Estão enviando um pedido de ajud...
- Ajuda? Estou enviando meu batalhão imediatamente!!!
Em menos de 5 minutos, uma nave tripulada por 10 Kabraqs e Nespler deixou o hangar. Embora um batalhão de outra raça pudesse ir usando máscaras de oxigênio, convenientemente foi justificado que somente foram enviados Kabraqs por estes serem imunes a todos os venenos conhecidos.
Com cuidado, a equipe entrou na nave. Lentamente foram encontrando ilkages desmaiados. Alguns permaneciam encolhidos, gritando ao ver a cor amarela da pele dos soldados.
Finalmente, Nespler encontrou o humano, sentado e triste perto do que parecia ser seu velho robô. Sem conhecer a língua do humano e sem o robô para traduzir, Nespler se limitou a fazer o sinal de reverência de sua raça: cruzar os braços colocando os punhos fechados nos ombros.
Roger entendeu que aquele sinal era de respeito. Se levantou e repetiu o sinal para ele e para seu falecido amigo C.G.Mex.
Neste momento, um soldado entrou. Ele trazia, escoltado, um outro humano.
- Almirante, este humano foi encontrado vagando pelos corredores.
Foi quando Roger se deu conta de um fato: os humanos da nave só acordariam quando não houvesse mais sua erva na nave. Com a destruição delas, o sistema começou a ativar, automaticamente, o sistema de reanimação dos viajantes. Conforme sua programação, o primeiro seria uma pessoa de sua maior confiança para o momento da chegada: seu pai.
Roger não falou nada. Apenas se limitou a correr e abraçar ao seu progenitor.
- Filho, o que está acontecendo?
- Almirante, o que devemos fazer? - perguntou o soldado.
- Vamos sair com os homens do almirante-chefe. Precisamos colocar a nave em quarentena até receber ordens do alto-comando.
- Mais alguma coisa senhor?
Nespler olhou para a dupla de humanos. Continuavam abraçados.
- Chame QnuBo pelo rádio. Precisamos de algumas explicações...

CAP 30

Nespler estava certo. A Confederação considerou inaceitável a conduta de Lukat. Por isso, o Alto Comando transferiu o Almirante-Chefe para um setor distante do espaço da Confederação. Entretanto, ele ainda estaria presente durante a conferência entre humanos e confederados.
Sem C.G.Mex para realizar a tradução simultânea, QnuBo intermediou as conversas. Estavam presentes Roger, o senador Altair e o presidente do Brasil do lado humano. Do outro estavam o presidente Kabraq de Banol e os mesmos representante da última vez.
Com a acessoria de QnuBo, os humanos puderam preparar uma exposição em vídeo com imagens retiradas das notícias da Terra da época do conflito. Após apresentar tudo, e com um suporte técnico pazenv, foi possível constatar a veracidade daquilo que era apresentado.
Novamente o presidente Kabraq tomou a frente:
- Está claro para mim que os humanos são refugiados e precisamos recebe-los de braços abertos!
O representante ilkage era mais frio em sua análise.
- Podemos recebe-los, mas nossos planetas têm o suporte de vida apropriado?
Feita a tradução, o presidente humano explicou:
- Companheiros, antes de sair da Terra, pudemos analisar a atmosfera de Banol. Ela é perfeitamente compatível conosco. Talvez tenha uma proporção um pouco maior de oxigênio, mas nada que venha a nos impedir de respirar lá. Na verdade, se nossos pulmões fossem incompatíveis, nem conseguiríamos ter esta conversa nesta sala.
- Isso está claro para nós, mas e quanto ao clima? À sucessão de dias e noites? Gravidade? Certamente o planeta Banol não é perfeitamente igual à Terra.
- E não estamos dispostos a fornecer muito espaço em nossas colônias: o espaço da Confederação é grande, mas não temos tantos planetas habitáveis disponíveis. Na verdade, em nosso espaço estão todos já colonizados. - complementou o representante pazenv.
- Não queremos invadir o espaço de ninguém. Só achar um lugar para viver em paz. Se puderem nos permitir viver em naves próximas de seus planetas, já está bom. Podemos fazer rodízio para os nossos cidadãos descerem e "esticarem as pernas" pelos seus planetas.
Os representantes se entreolharam. O ilkage disse:
- Podemos vender naves mais espaçosas para vocês não se sentirem apertados.
O presidente logo percebeu que teria de explicar suas figuras de linguagem:
- Eu quis dizer que os humanos precisam sair um pouco do ambiente sem gravidade das naves e passar um tempo nos planetas para manterem a saúde.
- Vocês são bem-vindos a todos os planetas Kabraqs! - convidou o presidente de Banol.
Porém, Lukat lançou sua última carta:
- Senhores, isso é seguro?
Os representantes voltaram-se para o ex-almirante-chefe. Ele prosseguiu:
- Os humanos têm uma arma que deixou indefesa toda uma tropa ilkage. Quem disse que um dia eles não podem usar esta arma contra nós?
Os representante começaram a conversar entre si. QnuBo fez a tradução.
- Espera aí! Estávamos nos defendendo! - Roger levantou a voz.
Embora Lukat não tenha entendido as palavras de roger, aproveitou para envenenar um pouco mais a conversa:
- Como podem ver, além de tudo, eles são irritadiços.
O presidente fez um sinal para o jovem se acalmar. Prosseguiu:
- Diga que estávamos nos defendendo de maneira não violenta. Nós já eliminamos qualquer planta que viesse a causar esse efeito de novo.
- Como vamos saber que não levam mais armas em suas naves? - continuou Lukat.
Roger se levantou:
- QnuBo, diga a eles: como forma de boa vontade, eu partirei sozinho para fora do espaço da Confederação com as naves. Os humanos vão comprar as naves daqui e levarão as suas coisas. Se quiserem, podem vistoriar tudo a procura de algo que possa fazer mal.
O senador surpreendeu-se. O presidente não gostou do que ouviu:
- Roger, eles não podem limitar nossa liberdade assim!
- Presidente, com todo o respeito, não somos mais um país soberano. Se não nos submetermos a esse pequeno sacrifício agora será o fim da raça humana. - respondeu o jovem com convicção.
- Mas, filho! E você? Podemos escolher outra pessoa para...
- Pai, fui eu quem iniciou esta antipatia com os ilkages. Eu sou o melhor sacrifício de boa vontade que eles podem querer. E, depois, o senhor mesmo me ensinou que não sou melhor do que qualquer outro. Que não devo receber previlégios.
O senador se calou. Não havia como contra-argumentar. QnuBo quebrou o silêncio:
- O que devo dizer?
O presidente voltou-se para o intérprete. Respondeu:
- Pode falar o que ele pediu, senhor QnuBo.
Enquanto o ilkage traduzia, o líder máximo continuou:
- A primeira nave da frota humana terá o seu nome.
- Senhor, se me permite, eu gostaria que chamasse a nave de Josias. Foi ele quem me ensinou a lição mais importante para que eu estivesse aqui...

CAP 31

Três meses se passaram. O ouro trazido pelos humanos foi suficiente para comprar as primeiras naves da humanidade na Confederação. Muitos permaneceram em Banol, dada a hospitalidade Kabraq. Seria algo temporário até que os humanos pudessem comprar mais naves.
Com todos os humanos desembarcados, Roger terminou seu preparativos para levar as naves humanas para fora da Confederação.
Roger havia obtido provisões que seriam suficientes para sustentá-lo para o resto de sua vida. Como havia muito espaço nas naves, armazenar não foi difícil. Durante o último embarque de provisões, Roger recebeu uma inesperada visita:
- Rosa! Seja bem-vinda!
- Oi, Roger. Soube que é hoje que você irá nos deixar.
- Sim... vou procurar por outro planeta habitável pra mim. Já tenho os mapas que indicam qual é o território da Confederação e onde posso fazer minha busca.
- É muito injusto tudo isso.
- Deixa para lá. Mas eu estou vendo que o filho do meu amigo está pra nascer!
Rosa deu um pequeno sorriso.
- Verdade. Deve estar nascendo daqui a duas semanas.
- Já tem um nome?
- Se for menina, vou chamar de Alexandra. Em homenagem ao Alex, que ficou na Terra...
- Esse cara não merecia vir. Mas você disse "se". Quer dizer então que não sabe o sexo da criança? - Roger mudou de assunto.
- Não tive tempo de ver. E, aqui, eu não confio muito nos aparelhos médicos dos Kabraqs.
Neste momento, um dos pazenvs que fazia o embarque veio falar com Roger e Rosa. Falava com um sotaque bastante engraçado.
- Senhor Roger, já está tudo pronto. Senhorita Rosa, podemos partir.
- Já estamos terminando aqui. Podem esperar em sua nave. - respondeu o humano.
O pazenv partiu.
- Até que eles aprenderam rápido a nossa língua. - comentou Roger.
- Eu vi que os pazenvs são muito estudiosos. Além disso, todos na Confederação estão comentando como o português é uma língua fácil.- explicou Rosa.
- O irônico disso tudo é que o português era considerado uma das línguas mais difíceis da Terra...
Rosa então abraçou o rapaz.
- Eu queria agradecer de novo por tudo o que você fez por mim e por todos nós. Você é um herói.
- Foi o C.G.Mex quem realmente se sacrificou por nós...
- Eu só segui seu plano, mestre Roger. - respondeu uma voz eletrônica.
Rosa estranhou e começou a procurar pelo robô.
- C.G.Mex? Ele não havia sido destruído?
- E foi. Mas teve tempo de transferir sua memória para o núcleo da nave. - sorriu o rapaz.
- Que bom! Você não está completamente sozinho. - disse Rosa feliz.
- Não. E um dia vou conseguir reconstruí-lo. - respondeu confiante.
- Bom, preciso ir. Espero revê-lo um dia.
- Quem sabe?
A mulher grávida enfim embarcou na nave de apoio. Queria contar que se o filho fosse um menino se chamaria Roger, mas acabou não tendo coragem de contar.
Finalmente a nave de Roger partiu. Graças à boa vontade dos Kabraqs, conseguira instalar motores de hiperespaço nas naves. Não eram muito rápidos: perfaziam apenas meio ano-luz ao dia, mas era bem mais rápido que os motores sub-luz originais.
- C.G.Mex, vamos procurar por um planeta bem próximo ao meu. - disse o rapaz, já no hiperespaço.
- Sim, senhor. Para que o senhor possa viver.
- Isso e algo mais.
- Algo mais?
Roger então mostrou um vaso que guardava perto do painel.
- Olha o que eu achei em um dos vasos.
Os sensores da nave deram a resposta à inteligência artificial ali instalada:
- Um broto?
- Sim. Nossos planos não foram totalmente destruídos. - respondeu com um sorriso malicioso.
- Vai começar tudo de novo... - respondeu a voz eletrônica.

FIM

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